Velázquez no Museu do Prado: os bufões

Décimo oitavo texto de uma série baseada na viagem que, em janeiro de 2026, fiz a Madrid, a Toledo e ao mosteiro de São Lourenço do Escorial

1. No texto precedente, deixei o leitor na produção de Velázquez dos anos trinta do século xvɪɪ. Nessa década, e depois também, o artista retratou «gentes de placer» que conheceu no palácio real. A expressão designa bobos, tolinhos, anões e pessoas disformes a quem reis e aristocratas davam guarida para com as suas momices se entreterem e divertirem, para exibirem generosidade com os desfavorecidos, para assim vincarem a superioridade das suas próprias silhuetas. No desenho de semelhantes criaturas, Velázquez deu folga aos critérios usados na apresentação de sujeitos com outro gabarito, aproximou‑se dos indivíduos em causa e nunca debochou da respetiva condição.

2. Em O Bufão Calabacillas (1635‑1639), o semblante e o sorriso transmitem modos de tolo. Júlio Dantas[1] carrega nas tintas: «[o bobo] surge numa expressão de idiotia repugnante, estrábico, plagioprósopo, acrocéfalo, aflitivo, sorrindo dolorosamente para nós, tão flagrante de verdade, que nós temos, diante dêle, a ilusão da vida.»

Diego Velázquez, O Bufão Calabacillas (óleo sobre tela, 1635-1639). Fui buscar a foto a https://www.museodelprado.es/coleccion/obra-de-arte/el-bufon-calabacillas/f5b4b198-ea59-480e-b30b-8e599cda31db

Vicente Aleixandre escreveu Ímpar, carme baseado n’O Menino de Vallecas (1635‑1645). Aqui ficam uns versos do poema, em tradução de José Bento[2]:

A pesada cabeça, caída para trás, olha, não olha,

pois nada vê. A boca está entreaberta;

respira só por ela, e os bracitos curtos brincam, riem,

enquanto a grande cara morta se oferece.

A mão aqui o pintou, o acariciou

e mais: o respeitou, existindo.

Pois era. E a mão quase não o resumiu, exaltando

sua dimensão verídica. Mas suavizou o ar,

fê‑lo mais verdadeiro em vazio possível

para o ser, como uma onda que a si impõe limites

e dobra suavemente em suas praias.

Aleixandre reporta‑se ao cuidado de Velázquez com a dignidade de um ser humano que a sorte desprezou, trata‑o — e pede ao leitor e ao espetador que o façam — com esguardo e, afinal, com verdade. O juízo que dele fez o pintor escapava aos ilustres patrões do truão.

Diego Velázquez, O Menino de Vallecas (óleo sobre tela, 1635-1645). Fui buscar a foto a https://www.museodelprado.es/coleccion/obra-de-arte/el-nio-de-vallecas/5a304c42-2eee-49da-b34e-3468b8cb7fb0

Observando O Bufão El Primo (1644), percebo, no olhar do nanico, na sua postura e no arrumo da imagem, o mesmo cuidado de Velázquez com o intuito de honrar a figura retratada, de lhe outorgar um sentido humano que na corte não lhe davam. Diverso é o conceito de Júlio Dantas[3], que não poupa nas palavras e aponta «um anão violento, robusto, repelente, hirsuto, cabelos negros, barba negra, testa curta, que nos olha com ódio, as mãos fincadas nos joelhos, as solas dos sapatos projectadas para a frente (porque não pode flectir as pernas), o tórax cingido no gibão verde que lhe destinou o camareiro mor».

Diego Velázquez, O Bufão El Primo (óleo sobre tela, 1644). Fui buscar a foto a https://www.museodelprado.es/coleccion/obra-de-arte/el-bufon-el-primo/cc7a8493-e2ff-4d33-a0d0-91d7dc210d5a

3. Daqui a algum tempo, talvez não me recorde de um ou outro óleo de Velázquez que vi no Prado, mas nunca me esquecerei dos seus bufos, da respetiva catadura, do esforço feito pelo artista a fim de os valorizar. De resto, são personagens que Velázquez terá transposto para a tela porque quis e não por dever de ofício. E isso conta.


[1] DANTAS, Júlio, Viagens em Espanha, Lisboa, Livraria Bertrand, [s.d.], p. 48.

[2] ALEIXANDRE, Vicente, Antologia de Vicente Aleixandre, seleção, tradução e prólogo de José Bento, Porto, Editorial Inova, 1977, pp. 157‑158.

[3] DANTAS, Júlio, ob. cit., p. 48.

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