Décimo nono texto de uma série baseada na viagem que, em janeiro de 2026, fiz a Madrid, a Toledo e ao mosteiro de São Lourenço do Escorial
1. No decurso da segunda viagem à Itália, realizada entre 1649 e 1651, Velázquez retratou o Papa Inocêncio X e almas que andavam pelos corredores do Vaticano. De volta a Espanha, fainas diversas mantiveram‑no ocupado, roubaram‑lhe tempo. Ainda assim, continuou a pintar membros da família real — por exemplo, Mariana de Áustria — e quadros com outros tipos de evocação, como As Fiadeiras. O artista morreu em 1660.
Em A Rainha Mariana de Áustria (1652‑1653), as cores, a nota de aparato, o vestido tufado e o penteado prendem a vista e marcam contraste com a expressão tristonha e sem graça da soberana. Estava previsto que ela se casasse com o príncipe Baltasar Carlos, seu primo. Por causa da morte prematura deste, acabou por contrair matrimónio, em 1649, com o rei Filipe IV, seu tio.

As Meninas, de 1656, é obra de grande formato. Pelo reflexo no espelho da parede fundeira, sabe‑se que Velázquez retrata o rei, Filipe IV, e a rainha, Mariana de Áustria. Eles veem o que o espetador vê. Em primeiro plano, à esquerda do artista, encontram‑se a infanta Margarida, filha dos reis, duas meninas que a serviam e também a anã Mari Bárbola e Nicolasito Pertusato, representado com o pé no dorso de um cão. Atrás deles, Marcela de Ulloa, dama de honor, e um guarda das damas; em ponto recuado, o aposentador José Nieto. O cenário escolhido é uma sala do Alcázar de Madrid, na qual se reconhecem cópias de composições mitológicas de Rubens e de Jacob Jordaens.
A composição é eucromática, a imagem está bem organizada e, em grande medida mercê do jogo de luz, sugere profundidade. A cena convida o observador a entrar na sala.
«A tela não é como tantas outras, mesmo dos melhores artistas e até do próprio Velázquez, uma peça destinada a decorar uma parede ou uma sala; aquilo é um pedaço autêntico duma dependência do Alcázar, é um verdadeiro momento vivido reposto diante de nós. “As Meninas” é uma sala onde está a infanta Margarida — reforço, sublinhando, esta afirmação convicta de Bréal.»[1]

O óleo intitulado As Fiadeiras (1655‑1660) foi sujeito a acrescentos no século xvɪɪɪ, acreditou‑se que ele reproduzia uma cena comum, que decorria num ateliê de tapeçaria: cinco mulheres trabalham e, lá atrás, umas senhoras janotas, talvez vindas para comprar um bordado, esperam. Já no século xx, apurou‑se que havia ali uma referência mitológica — diante de uma reprodução d’O Rapto de Europa, de Ticiano, decorre uma discussão entre Atena e Aracne a propósito dos talentos que cada uma delas tinha para a tecelagem. Afinal, esse é o acontecimento primaz e a tela intitula‑se A Fábula de Aracne ou As Fiadeiras.
Velázquez lidou bem com a luz e com a arquitetura (dificultosa) da composição. A figura da mulher que se encontra mais perto do observador e a reprodução dos seus gestos são magníficas.

Há diferenças importantes entre tal peça e As Meninas. A Fábula de Aracne não é um retrato, ninguém posou para o pintor, as personagens não permaneceram durante horas dentro do alcance da vista dele. O debuxo dilui‑se e as pinceladas são mais fluidas. Assim se defendia Velázquez, e fazia‑o bem, quando não tinha diante de si, ao menos por algum tempo, o objeto da sua pintura.[2]
2. Na feitura de Velázquez patente ao público no Museu do Prado, regalei‑me com a autenticidade das expressões que percebi em vários rostos e com a forma, no mesmo passo bela e veríssima, de apresentar a realidade.
Ele foi um «grande pintor de aptidões universais, sem escola e sem especialidade, que copiou do vivo todas as classes e todos os tipos, indo procurá‑los nos paços reais, nos palácios dos duques e dos grandes, nas igrejas, nos claustros, nos lupanares, nas tavernas, nos salões, nas mansardas, nos campos, nas festas, na miséria, na fome, nas prisões, nas feiras, nas estradas e na rua»[3].
E não só. «Velasquez é muito mais do que um pintor illustre; é como que o symbolo não só da pintura, mas da propria raça hespanhola. O seu pincel ensopava‑se na propria côr local do seu paiz; e os seus nervos, as suas linhas vigorosas, as suas tintas severas, e toda a galharda sobriedade da sua obra, tudo isso vinha cheio, impregnado, saturado, da grande, e bella, e sobretudo inconfundivel alma nacional da extraordinaria Hespanha.»[4] — sei que posso ser criticado por trasladar para as minhas deposições tanta letra doutrem, mas gosto de badalar os textos de autores que prezo, sobretudo daqueles que poucos conhecem, e sempre quero deixar aqui bons nacos de prosa, nomeadamente em português antigo.
[1] GUSMÃO, Adriano de, Espanha Artística. Notas de Viagem, Lisboa, Seara Nova, 1947 ou 1948, p. 148.
[2] Sobre o que vai dito neste parágrafo, cf. CASTRO, Ferreira de, As Maravilhas Artísticas do Mundo, volume ɪɪɪ, Lisboa, Guimarães Editores, [s.d.], p. 192.
[3] ANDRADE, Anselmo de, Viagem na Espanha, 3.ª edição, Coimbra, Coimbra Editora, 1923, p. 41.
[4] MESQUITA, Alfredo, Terras de Hespanha, Lisboa, Livraria de António Maria Pereira, 1898, pp. 207‑208.