Apontamentos

Zurbarán no Museu do Prado

Décimo sexto escrito de uma série baseada na viagem que, em janeiro de 2026, fiz a Madrid, a Toledo e ao mosteiro de São Lourenço do Escorial

1. Esta deposição é consagrada a Francisco de Zurbarán e incide sobre a sua obra patente ao público no Museu do Prado. Para a redigir, arrimei‑me ao guia do museu[1], às notas explicativas dos quadros (in situ e na página web da instituição) e aos meus registos de amador.

2. Francisco de Zurbarán (Fuente de Cantos, Badajoz, 1598 – Madrid, 1664) foi um pintor de motivos religiosos, designadamente hagiográficos e monacais. Fez a sua aprendizagem artística em Sevilha, aí passou a maior parte da vida, recebeu encomendas importantes de instituições eclesiásticas andaluzas e estremenhas.

Privilegiou o arranjo visual simples, sóbrio, o contraste entre luz e sombra que denota influência de Caravaggio — chamaram‑lhe «Caravaggio espanhol». A partir dos anos quarenta do século xvɪɪ, o seu trabalho perdeu os favores do público, que deu preferência às composições mais ternas de Murillo, outro pintor do imaginário cristão. Zurbarán chegou a suavizar o estilo do seu pincel, mas permaneceu fiel ao modelo austero.

As naturezas‑mortas de que é autor expõem rigor geométrico e atraem o sentido do tato.

3. Pedro Nolasco fundou a Ordem de Nossa Senhora das Mercês, dedicada ao resgate de cristãos presos por muçulmanos. Para um convento em Sevilha, os mercedários pediram a Zurbarán que reproduzisse diversos episódios da biografia de Nolasco. A Aparição de São Pedro a São Pedro Nolasco (1629) é uma das telas pintadas na sequência do encargo. Visto que Nolasco não conseguia aquilo que anelava, ir a Roma visitar o túmulo do apóstolo Pedro, este surgiu defronte dele, crucificado com a cabeça voltada para o solo (Pedro não se achava digno de morrer na mesma posição que Jesus), e incitou Nolasco a prosseguir o seu labor de evangelização em Espanha.

Estão à vista sinais caraterísticos da empresa de Zurbarán. Por uma banda, o cuidado posto na exibição das rugosidades (das roupas, neste caso); por outra, o tratamento da luz e da sombra — convoca atenções para os dois protagonistas, concorre para a teatralidade da cena e, por via de um certo fascínio visual, potencia incrementos de fé. Et pour cause: a hora era barroca.

Francisco de Zurbarán, A Aparição de São Pedro a São Pedro Nolasco (óleo sobre tela, 1629). Fui buscar a foto a https://www.museodelprado.es/coleccion/obra-de-arte/aparicion-de-san-pedro-a-san-pedro-nolasco/2bb92358-e20d-464f-8863-acdf0cdb55a9

Com as devidas adaptações, o que escrevi no parágrafo anterior aplica‑se a Cordeirinho (1635‑1640). O artista pôs em cena um borrego tristonho, de patas atadas ante retaguarda escura e, com o auxílio da modelação luminosa, evidenciou perícia na criação de volume e também na figuração das texturas (da lã, dos chifres) e do olhar mortiço do bicho.

Quando Zurbarán quis aludir ao Cordeiro de Deus, à vítima sacrificial que ele evoca, incluiu no quadro elementos que para tal apontam. Aqui não, não é correto falar do Agnus Dei.

Francisco de Zurbarán, Cordeirinho (óleo sobre tela, 1635-1640). Fui buscar a foto a https://www.museodelprado.es/coleccion/obra-de-arte/borreguillo/795b841a-ec81-4d10-bd8b-0c7a870e327b

O que vai dito rege, outrossim, a Natureza‑morta com Vasilhas de Cozinha (1650, aproximadamente). A composição é estruturada pela luz, que faz sobressair, em fundo negro, os recipientes, dando‑lhes presença escultórica.

Francisco de Zurbarán, Natureza‑morta com Vasilhas de Cozinha (óleo sobre tela, 1650, aproximadamente). Fui buscar a foto a https://www.museodelprado.es/coleccion/obra-de-arte/bodegon-con-cacharros/bdd71dfb-cde5-440e-87a2-48d8c64060dd

4. As verdades são relativas. No Prado, após ter visto de enfiada criações de El Greco, Ribera, Zurbarán, Velázquez, Murillo e Goya, não terei ficado deslumbrado com os feitos de Zurbarán. Ainda assim, eles poliram‑me o espírito e aproximaram‑me da natureza‑morta, género que não aprecio.


[1] AAVV, La Guía del Prado, 7ª edição, revista, [s.l.], Museo Nacional del Prado, 2019.

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