Vigésimo oitavo texto da série Autores que cantaram o Douro
1. No âmbito do beletrismo, Vasco Graça Moura (Porto, 1942 – Lisboa, 2014) ganhou notoriedade enquanto poeta, tradutor, ensaísta e romancista. Demais, exerceu advocacia, desempenhou funções de gestão (mormente na RTP e na Imprensa Nacional – Casa da Moeda), teve papel ativo na vida política e cultural: integrou dois governos provisórios, presidiu à Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, foi eurodeputado e Comissário de Portugal para a Exposição Universal de Sevilha — o rol não é exaustivo, longe disso.
2. Embora não tenha sido por via da ficção que Vasco Graça Moura ascendeu a lugar de relevo no universo literário, é de Por Detrás da Magnólia, romance publicado em 2004, que venho aqui tratar.
O escritor ficciona a história da sua família e enlaça‑a com o que se vai passando em Portugal. É certo que a trama, as personagens e as casas que lhes servem de residência, permanente ou temporária, saíram da imaginação dele. Mas ali se enxergam as suas memórias, incluindo «nomes de família, a espoliação de sua trisavó e das irmãs por um tio padre, a referência de passagem ao suicídio de seu bisavô, mentalmente perturbado após a morte da mulher, e a recordação que o autor tem de um grande solar, completamente destruído por um incêndio não sabe quando, e que já só conheceu reduzido à fachada, entretanto provavelmente demolida»[1].
Parte essencial da ação decorre «em Gouvães do Douro, aldeia do Alto Douro que o autor conhece desde que nasceu, por de lá ser originária a família materna de sua avó materna, e onde sempre passou as férias grandes, na infância e na adolescência»[2].
Por Detrás da Magnólia não é, porém, prosa acerca do rio e do cenário que o envolve, é um livro de paisagens humanas, com páginas povoadas por terratenentes do Douro e pelo correr lento das suas horas: os entreténs resumiam‑se «a umas partidas de gamão e uns jogos de cartas ao serão e, durante o dia, a umas contemplações bucólicas da paisagem, umas passeatas a cavalo e pouco mais, a não ser que a estação fosse propícia à caça»[3].
As referências espaciais servem para dar a conhecer o trem de vida dos proprietários rurais. «A casa tinha dignidade, boa aparência e móveis decentes do tempo dos senhores D. João V e D. José I, alternando com canapés de palhinha entrançada, credências de gosto francês e grandes armários apainelados do século XVII. Em dois dos salões, de pé‑direito mais elevado, os tectos eram de masseira. Noutros dois, havia imagens mitológicas um tanto ou quanto requentadas, uma Minerva e um Orfeu, pintados em cores violentas e atavios caprichosos só concebíveis pelos ingénuos artistas do Alto Douro, dentro de cercaduras ovais.»[4]
Alguns figurões de Por Detrás da Magnólia dedicam‑se ao negócio do vinho. Hoje ouve‑se falar das dificuldades do viticultor duriense e do drama social na sua região. O fenómeno não é novo, Vasco Graça Moura também o refere (vide pp. 35 e 83). E é percuciente ao descrever a inópia que atolava os habitantes de Gouvães do Douro:
«Era terrível a miséria em que via viver aquela gente da aldeia. Crianças que nasciam ao morrer ou mal arribavam, crianças que morriam sem assistência, crianças que cresciam raquíticas e deformadas pelas privações, mães sem leite, sem comida para os filhos e sem esperança para eles, jornaleiros que se esfalfavam a arquejar nas suas lides de sol a sol e mal tinham um naco de pão para sustentar a família, mulheres precocemente envelhecidas, idosos metidos em andrajos, histórias de brutalidade e alcoolismo, gente que se arrastava de doença em doença, sem médicos, sem remédios, sem higiene e sem esmola, padecendo de chagas e fracturas, tumores e infecções, artroses e reumatismos, enfiada em cardenhos fétidos e inabitáveis, por invernos sem protecção e sem agasalho, e fome, promiscuidade e pobreza, pobreza, somente a pobreza, como uma maldição atávica a curti‑los, a engelhá‑los implacavelmente ao longo das estações do ano, a deixar na passagem daquelas criaturas um relento agoniante que parecia vir do mais fundo e do mais sórdido das idades do homem.»[5]
Dedico a cópia deste excerto aos palermas que dizem «noutro tempo é que era bom».
Continuando no campo daquilo que hoje deveria constituir um anacronismo, Vasco Graça Moura menciona «o abade da freguesia que, por tradição imemorial, quando havia alguém lá em casa, ia sempre tomar o pequeno‑almoço com a família, tinha grande influência no beatério da aldeia e exigia forragem fresca para a égua» e um notário, Jesuíno Cerqueira, para quem a «donzela portuguesa deve preparar‑se desde as primeiras letras para os encantos da maternidade e para o seu papel na família»[6].
Tocou‑me a sensibilidade que Vasco Graça Moura denota relativamente à arte fotográfica. Acresce que cria no leitor empatia para com Roberto, um homem que nela achava o encanto pela vida e que procurava pôr na imagem o esforço dos que se entregavam à cultura da vinha. Renata, a sua mulher, sustentava‑o e desprezava‑o, a ele e ao empenho que Roberto punha nas fotos.
3. Por Detrás da Magnólia deixa à vista um escritor erudito. Adorei o romance, senti pena quando acabei de o ler. Consolou‑me pensar que a seguir viria outro livro de qualidade.
Conquanto não seja fã de analepses, achei o discurso fluido. Durante a leitura, aqui e ali voltei para trás e mesmo nisso senti gosto, sobretudo ao regressar à visita de Adelaide a Arnaldo, seu antigo amor, em Vila Nova de Gaia.
4. Da família que protagoniza o enredo faz parte Aloísio, sacerdote apreciador de comida e de mulheres, pai de uma menina e agiota. Ganancioso, vigarizou a sua parentela. Sua Reverência, que com entusiasmo lia a obra de Paulino António Cabral, o Abade de Jazente, chamou a minha atenção para os carmes desse poeta (sonetista, principalmente) do século xvɪɪɪ que eu desconhecia, cantor de coisas e de prazeres simples e também da sua própria intimidade.
Em Por Detrás da Magnólia (p. 52), Vasco Graça Moura transcreve os versos do Abade de Jazente que Aloísio recitava e nos quais se revia:
Eu como, eu bebo, eu durmo, e sem receio
Do que há‑de vir a ser, a vida passo,
Ora de Nize no gentil regaço,
Ora das Musas no sonoro enleio.
Às vezes pesco, às vezes jogo, ou leio,
E torres vãs também no vento faço;
Depois me vou meter naquele espaço,
Onde Descartes tinha o seu passeio.
Nize será o anagrama do nome de uma mulher que Paulino António Cabral amou. No último verso, Vasco Graça Moura escreve «enleio» em vez de «passeio», termo que, pelo visto na minha pesquisa, Cabral empregou.
[1] MOURA, Vasco Graça, Por Detrás da Magnólia, Lisboa, Quetzal, 2004, p. 251.
[2] MOURA, Vasco Graça, ob. e loc. cits.
[3] MOURA, Vasco Graça, ob. cit., p. 85.
[4] MOURA, Vasco Graça, ob. cit., p. 70.
[5] MOURA, Vasco Graça, ob. cit., p. 212.
[6] MOURA, Vasco Graça, ob. cit., pp. 15 e 112, respetivamente.