Apontamentos

Primeiros passos em Toledo. O realismo social na pintura de Vicente Cutanda

Terceiro texto de uma série baseada na viagem que, em janeiro de 2026, fiz a Madrid, a Toledo e ao mosteiro de São Lourenço do Escorial

1. Stupete, gentes! Eu e a minha companheira apreciamos arte moderna e arte contemporânea e, conquanto tenhamos passado alguns dias em Toledo, não tivemos tempo para ver a coleção de obras dos dois géneros que pertence a Roberto Polo. Preferimos sentir uma Espanha ainda telúrica, andar entretidos com os traços d’El Greco e dilatar as pupilas em museus, no Colégio Real de Donzelas Nobres, em mesquitas, sinagogas e templos cristãos, ali levantados por membros das três comunidades que conformaram o burgo e a pólis.

2. Os passos da história em Toledo notam‑se logo na estação ferroviária, de estilo mudéjar. Abunda o arco multilobado, a torre evoca um minarete, a sala dos passos perdidos exibe teto artesoado e silhares de azulejos hispano‑mouriscos.

A torre da estação ferroviária de Toledo

3. Na cidade das três culturas, fomos, em primeiro lugar, ao Museu de Santa Cruz, instalado no edifício de um antigo hospital provido de belo portal plateresco. Aí vimos telas de qualidade, nomeadamente d’El Greco, como A Imaculada Conceição (1608‑1613). Noutros textos referir‑me‑ei a manufatos do pintor oriundo de Creta que beneficiam de maior ressonância, agora escreverei sobre a empresa de Vicente Cutanda, artista com ligações a Toledo: descobrir a sua criação foi um dos fatores que mais encareceram a nossa primeira viagem de 2026.

O esforço de quem labuta sensibiliza‑me, o menosprezo pela condição laboral, entendida de forma ampla, arranha a minha consciência. Nas belas‑artes, aprecio a reprodução comprometida do trabalhador e do universo em que ele se move. Quando estive no Museu do Prado, dias antes de ir a Toledo, um faro de sabujo levou‑me à sala onde é exposta pintura de tema social. Aí, a adrenalina e a excitação vindas de Uma Greve de Trabalhadores na Biscaia (1892), quadro de Vicente Cutanda, cedo me cativaram. A curiosidade deu lugar à satisfação no Museu de Santa Cruz, em Toledo, nele tive ensejo de ver uma retrospetiva, ainda que pequena, da obra de Cutanda.

Vicente Cutanda (Madrid, 1850 – Toledo, 1925) dedicou‑se ao desenho a lápis, ao guache, à gravura, à aguarela e, principalmente, à pintura a óleo. Alguns trabalhos seus vieram estampados em publicações periódicas. Ele foi paisagista e teve mão costumbrista, cultivou a pintura histórica, a pintura religiosa e, principalmente, a pintura de assunto sociolaboral (por vezes, na mesma peça, fundiu os tipos).

A educação religiosa de Cutanda, o debate acerca da encíclica Rerum Novarum e as viagens que o levaram a conhecer fábricas e o modus vivendi do proletário concorreram para que, através da arte, ele se convertesse numa figura de proa do realismo social: pôs em tela os altos‑fornos da Biscaia, o mundo da mina e o dos caminhos de ferro, a vida áspera de quem tinha de vender a sua força de trabalho.

A secção mais interessante de Un pintor entre dos siglos, a mostra devotada a Cutanda que visitei no Museu de Santa Cruz, era justamente aquela em que se achavam reunidas as telas a que subjaz o orbe da empresa e do assalariado. O óleo Fantasia ou Virgem Trabalhadora (1897) integra o acervo do museu, nem sequer foi necessário colocá‑lo na sala onde estava patente a exposição.

4. Vicente Cutanda repetiu certa forma compositiva: fundo com elementos arquitetónicos e com recheio próprio de fábrica — veículos, máquinas, utensílios — e, em primeiro plano, o núcleo da imagem (vide Fora de Combate, de 1895, Descanso durante a Jornada de Trabalho, de 1896, e Fantasia ou Virgem Trabalhadora).

O carvão (Descanso durante a Jornada de Trabalho), o fumo e o fogo [O Biberão, de 1894 (aproximadamente), Fora de Combate e Descanso durante a Jornada de Trabalho] são caraterísticos do meio que o artista retratou. O laranja do fogo e as cores vivas de algumas peças de roupa vincam o contraste com os tons de cinza, aptos a transmitir a realidade acerba do universo fabril — vide O Biberão e Descanso durante a Jornada de Trabalho.

Vicente Cutanda, Descanso durante a Jornada de Trabalho (óleo, 1896)

D’O Biberão dimanam ternura — sublimada pelo enquadramento, numa cena que não é lene — e um jogo entre as cores sem graça que evocam atmosfera pesada e o amarelo da manta que envolve as pernas e os pés do bebé.

Vicente Cutanda, O Biberão [óleo, 1894 (aproximadamente)]

Fora de Combate denota a atenção dada ao acidente de trabalho, àquilo que corre mal. O dramatismo é sublinhado pelo gesto da jovem, que enxagua as lágrimas com uma peça de roupa. Quiçá forçado pela pressão, um dos operários continua a executar as suas tarefas, como se nada tivesse acontecido.

Vicente Cutanda, Fora de Combate (óleo, 1895)

N’ A Pedra ou Heróis Modernos (1895) destaca‑se a bravura de dois trabalhadores rurais, um homem e uma mulher que, em situação de risco, afastam um pedregulho dos carris.

Vicente Cutanda, A Pedra ou Heróis Modernos (óleo, 1895)

Fantasia ou Virgem Trabalhadora é um quadro singular, não o esquecerei. De uma fábrica saem mulheres que, a avaliar pelos cestos que transportam, foram levar a pitança aos respetivos maridos‑operários. Uma das senhoras segura um bebé com o braço esquerdo. Um halo circunda a cabeça dela, e um outro, mais pequeno, rodeia a cabecita da criança. Eis uma figuração da Virgem Maria, que zela pela satisfação das necessidades do marido‑trabalhador e que santifica a lida.

Num dos bancos da Capela da Imaculada, em Braga, uma estátua de madeira representa, sentada, Nossa Senhora da Humildade. Essa dama simples, do povo, interage com os que tomam lugar à sua beira. Lembrei‑me dessa escultura quando vi esta Nossa Senhora de Cutanda, que circula pelas fábricas e que, no meio das outras mulheres, leva a refeição ao consorte.

Vicente Cutanda, Fantasia ou Virgem Trabalhadora (1897)

5. No fim do século xɪx, a vida do assalariado era uma pinha de abrolhos e por isso especialmente prezei a exaltação — de certo jeito discreta — da classe trabalhadora por parte do pintor entre dos siglos. As primeiras andanças em Toledo não poderiam ter sido melhores.

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