Pedaços da Madrid brutalista

Nono texto de uma série baseada na viagem que, em janeiro de 2026, fiz a Madrid, a Toledo e ao mosteiro de São Lourenço do Escorial

1. Não gostaria de morar num prédio de feições brutalistas (numa vivenda, talvez). Cedo me cansaria do grande volume maciço e do módulo repetido, tomar‑me‑ia a impressão de coisa que ficou por acabar.

Em Madrid, detive‑me diante de quatro espécimes do estilo: o complexo onde funciona o Tribunal Constitucional, o edifício‑sede da UGT (Unión General de Trabajadores), o Torres Brancas e a Igreja de Nossa Senhora de Guadalupe.

2. O grupo de edifícios em que se aprecia a constitucionalidade das leis foi levantado entre 1975 e 1980. O seu bloco mais emblemático é feiote, mas não se esquece: impõe‑se pela forma troncocónica cortada por centenas de janelas, com vidro dourado, lançadas para o exterior em módulos trapezoidais. Nos restantes blocos, mais pequenos e com planta circular, as paredes são cegas e a base é maior do que o topo. A ausência de ornatos aponta para a sobriedade que se espera de um órgão que administra a justiça.

O conjunto fez‑me pensar num suricata, apoiado nas patas traseiras e de atalaia; e num Argos, mas não o que vigiava a amante de Zeus. Com a mente na terra lusa, direi que, perante tanta afronta à ordem constitucional — lembro, por exemplo, o pacote de reforma das leis do trabalho apresentado pelo Governo português —, todo o cuidado posto na defesa da Constituição é bem‑vindo.

Tribunal Constitucional

3. Tampouco é bonito o imóvel, de 1977, que abriga os escritórios centrais da UGT. Integra um corpo hexagonal e um outro alongado (o modo de arrumação deles recorda uma locomotiva), exibe figuras geométricas simples e estrutura de betão aparente, sem pintura ou adorno; transmite valores caros ao mundo do trabalho: resistência e robustez.

Sede da UGT

4. O Torres Brancas — o plano inicial contemplava a construção de duas torres, as entidades públicas competentes limitaram a autorização a uma —, erguido entre 1964 e 1969, é um colosso. A referência à cor branca radica na simplicidade do material dominante, o betão.

O prédio é representativo do brutalismo. Além disso, quem o concebeu respeitou preceitos da arquitetura orgânica: pretendia‑se que evocasse uma árvore, com vegetação a pender das varandas. À semelhança das Unidades de Habitação de Le Corbusier, ele é um microcosmo. Tem piscina no topo e foi dotado de creche, de capela, de lojas e escritórios.

Torres Brancas

5. Na Igreja de Nossa Senhora de Guadalupe, erigida entre 1962 e 1965, eu e a Jūratė fomos recebidos, de maneira fraterna e a desoras, por Josué, um padre mexicano da congregação à qual foi entregue a direção da paróquia.

As linhas dessa casa de Deus têm um encanto que não vi nas feituras atrás referidas. Chamam‑lhe «chapéu mexicano», mas os que a projetaram tiveram no espírito a tenda de Abraão[1], aberta a todos. Em vez da nave sobre o comprido, a igreja tem planta octogonal. Quatro colunas, em conjunto com a parede que fecha o edifício, suportam o peso da cobertura, formada por arcabouço de oito paraboloides hiperbólicos (o efeito estético é cativante). O uso do betão aparente condiz com a simplicidade associada à vida religiosa. O altar encontra‑se no centro do templo e, simbolizando proximidade, os fiéis sentam‑se em torno do espaço onde ele está situado.

Igreja de Nossa Senhora de Guadalupe
Igreja de Nossa Senhora de Guadalupe
No interior da igreja, imagem de Nossa Senhora de Guadalupe

[1] Cf. Génesis, 18, 1‑8.

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