Décimo terceiro texto de uma série baseada na viagem que, em janeiro de 2026, fiz a Madrid, a Toledo e ao mosteiro de São Lourenço do Escorial
1. O fotorrealismo capta a minha curiosidade. Acho interessante a pintura que parece fotografia, cativa‑me a reprodução precisa da paisagem citadina (edifícios, estabelecimentos comerciais, espaços públicos), divirto‑me a observar as declinações da sociedade de consumo norte‑americana. Farto de imagens digitais, prezo a peça feita à mão. No confronto com a fotografia, valorizo o labor e a marca dos autores fotorrealistas. Quanto à última, não se diga que no quadro apenas se enxerga uma realidade objetiva, amiúde ele manifesta um jeito próprio de apelar à nostalgia. Outrossim, embora gostasse de ser proprietário de uma coleção de arte abstrata, deleito‑me ao visitar mostras de arte figurativa.
No Museu Thyssen‑Bornemisza, em Madrid, vi trabalhos de três artistas que seguem o estilo em causa, a saber, Richard Estes (Cabines Telefónicas, Nedick’s, People’s Flowers e Autorretrato Perto do Oculus, no World Trade Center), Charles Bell (Thunder Smash e Tropic Nights) e Bertrand Meniel (Lucky Dragon).
2. Richard Estes
Adepto da construção visual rigorosa, Richard Estes (Kewanee, Illinois, 1932) é um detalhista, atento a todo o pormenor. Para pintar, baseia‑se em fotografias. Concentra‑se nas cidades, designadamente em Nova Iorque, e insiste na exibição dos reflexos de chapas metálicas e de superfícies vítreas.
As Cabines Telefónicas (acrílico sobre masonite, 1967) estão (ou, pelo menos, estiveram) situadas em Manhattan e vincam o anonimato nas grandes urbes: ocupam espaço importante na imagem, uma das poucas de Estes que incluem figuras humanas, mas quase nada se sabe acerca das pessoas que se encontram dentro das cabines. Nedick’s (óleo sobre tela, 1970) já desvela o interior complexo de um fast food. A rua no lado esquerdo melhora o arranjo, permite que o observador respire e traz ganho de ordem estética. People’s Flowers (óleo sobre tela, 1971) reproduz uma loja de flores. A armação, em formato vertical, é impecável. Saliento a cor e o debuxo da textura, sobretudo na fachada da venda, e também os reflexos — esta pintura tem qualquer coisa que sempre faltaria numa foto. Autorretrato Perto do Oculus, no World Trade Center (óleo sobre tela, 2017) é, no fundo, um espelho. Em consonância com as ousadias de carácter arquitetónico que aí se acham à vista, a obra denota arrojo.
3. Charles Bell
Olhar para o manufato de Charles Bell (Tulsa, Oklahoma, 1935 – Nova Iorque, 1995) é, para mim — e, acredito, para alguns dos que leem o presente texto —, um regresso à infância e à adolescência: explorando jogos de luz, de cor e reflexos, e a todo o tempo cuidando das minúcias, Bell reproduziu berlindes, brinquedos, bonecos, dispensadores de bolas de pastilha elástica e máquinas de flíperes.
As tintas do artista aumentam a vis atrativa do objeto, extraem‑no da banalidade. Senti‑o quando deparei com Thunder Smash (acrílico sobre tela, 1977) e com Tropic Nights (óleo sobre tela, 1991).
4. Bertrand Meniel
Como Richard Estes, Bertrand Meniel (Boulogne‑Billancourt, 1961) privilegia a paisagem urbana.
Copio, traduzindo, o que vai dito em bertrandmeniel.com: «Na sua obra pictórica, a composição é criada a partir de várias fotografias e contém muita minudência. Embora trabalhe com tintas acrílicas de secagem rápida, Meniel logra incluir em cada uma das suas pinturas mais informação do que qualquer outro fotorrealista até ao momento presente. Do ponto de vista técnico, é insuperável. A primeira exposição de Meniel nos Estados Unidos decorreu na Galeria Louis K. Meisel, em 1999, e o autor continua a mostrar os seus quadros à escala internacional; ele é um artista autodidata.»
Lucky Dragon (acrílico sobre tela, 2009), uma figuração de São Francisco, na Califórnia, não me seduz, tem demasiada claridade. Mas Meniel é um artista de mão‑cheia, os seus trabalhos, acessíveis no sítio da internet acima referido, justificam os autoelogios transcritos no parágrafo precedente.
5. Aqui chegado, o leitor compreenderá por que razões a tela fotorrealista me prende e intriga, mesmo quando cheira a kitsch: estimo o seu modo de trazer a matéria ao espetador; convoca edifícios e artefactos que, sem ela, passariam despercebidos; oferece um plus que está fora do alcance da foto; é produto do trabalho humano e tem uma autenticidade que falta às imagens criadas por via da inteligência artificial.
Este texto não terá sido redigido em vão se houver despertado em quem o leu algum interesse pelo fotorrealismo.