Primeiro texto de uma série baseada na viagem que, em janeiro de 2026, fiz a Madrid, a Toledo e ao mosteiro de São Lourenço do Escorial
1. A edificação do mosteiro de São Lourenço do Escorial foi produto da vontade do rei Filipe II, que almejava levantar um panteão capaz de refletir a pujança da coroa espanhola e de albergar as sepulturas de seu pai, Carlos V, dos sucessores deste — incluindo o próprio Filipe II — e das respetivas famílias. Considerando a necessidade de um número elevado de clérigos velar em permanência pela alma de tão ilustres figuras, construiu‑se um convento, cuja direção espiritual ficou entregue aos jeronimitas. Do complexo também fazem parte instalações palacianas, destinadas a acolher o soberano e o séquito que o acompanhava.
São Lourenço do Escorial é um monumento votivo, decorre do cumprimento de uma promessa feita por Filipe II depois da vitória na Batalha de São Quintino (1557), que teve lugar no dia dedicado a São Lourenço. Bem assim, as tropas do Império Espanhol terão destruído, durante a referta, um mosteiro consagrado ao santo e o monarca obrigou‑se a construir um outro, maior do que esse.
A planta do mosteiro, em grelha, talvez evoque o instrumento de martírio do santo dotado de grande sentido de humor, aquele que, nas grades de ferro em que estava a ser queimado, disse ao algoz: «Vira‑me, deste lado já estou assado.»
2. O colosso de granito foi erguido entre 1563 e 1584, sob direção de Juan Bautista de Toledo, primeiro, e de Juan de Herrera, em fase posterior.
Escreveu Adriano de Gusmão[1]:
«Arquitectònicamente, o Escorial não é para se ver em pormenor, tão raros eles são dignos de interêsse. Felipe II recomendou a Herrera que lhe construísse um monumento com “simplicidade na forma, severidade no conjunto, nobreza sem arrogância, majestade sem ostentação” — e o artista soube cumprir rigorosamente, e com grande talento, as prescrições régias.
Herrera, sôbre os planos já concebidos por Juan Bautista de Toledo, imprimiu a feição definitiva ao esmagador monumento, mas com tal personalidade que, introduzindo em Castela, como Machuca em Granada, o italianismo de que estava imbuído, criou uma tradição nova, que haveria de caracterizar muitas outras construções posteriores, tão grande influência veio a exercer o Escorial pela sua expressão arquitectónica, despido de ornatos, duma pureza mais que austera, e de perfis memoráveis.»
Na verdade, São Lourenço do Escorial baralha‑me no uso dos substantivos: dele promana aparato, mas não opulência. O complexo monumental condiz com a aura de poder associado a gravidade que envolvia Filipe II: a presença dele inspirava temor reverencial.
A sobriedade é evidente na arquitetura, despida de rodriguinhos, dos blocos que compõem São Lourenço do Escorial e, se de certa forma é desmentida no enfeite da biblioteca e do Palácio dos Bourbons, logo vem confirmada, e de que maneira, nos aposentos de Filipe II, mormente no arreio simples do seu gabinete e do seu quarto de dormir.
3. Eu e a Jūratė seguimos o percurso habitual da visita, que nos levou ao salão principal da biblioteca, à basílica, ao claustro principal, à Igreja Velha, às salas capitulares, ao Panteão dos Infantes, ao Panteão dos Reis, ao Palácio dos Áustrias (o palácio dos Habsburgos), à Sala das Batalhas e ao Palácio dos Bourbons. Depois, passeámos nos jardins do mosteiro.
Na biblioteca, gostámos muito do teto abobadado, com frescos maneiristas de Pellegrino Tibaldi: nas ilhargas, o pintor pôs em cena as sete artes liberais segundo a arrumação medieval (retórica, dialética, gramática, aritmética, geometria, astrologia e música); nas extremidades de tão belo dossel, Tibaldi figurou a teologia e a filosofia.
No que toca ao recheio da basílica, recordo o tenebrário, um Cristo crucificado de mármore exposto na Capela dos Doutores — obra de Benvenuto Cellini, terminada em 1562, em que o tronco de Cristo é digno de nota — e, voltadas para o retábulo‑mor porquanto em adoração do Santíssimo Sacramento, as esculturas de bronze dourado que compõem os cenotáfios de Carlos V, de Filipe II e de alguns membros das respetivas famílias.
As salas capitulares dão corpo a uma pinacoteca, na qual distingo um trabalho d’El Greco, O Martírio de São Maurício e a Legião Tebana (dedicar‑lhe‑ei um texto) e também A Túnica de José (1630), de Velázquez: Jacob recebe alguns dos seus filhos, que lhe mostram a túnica ensanguentada de José, levando o pai a crer que havia perdido o filho dileto. Aprecio o modo como Velázquez representou o sofrimento de Jacob, a hipocrisia dos descendentes e o ladrar do cão, que não se deixa iludir.
O Panteão dos Infantes e o Panteão dos Reis causaram‑me repulsa. Não por convocarem a morte, antes pela deferência concedida a tanta gente que recebeu honraria e privilégios por ter nascido em berço de ouro. O Panteão dos Reis — uma cripta em forma de círculo na qual os bronzes auricolores intensificam o impacto causado pelo mármore do revestimento e das urnas — é o único sítio do mosteiro onde é proibido tirar fotografias, também isso sublimou os meus desapegos. Da câmara funerária saí com renovados fervores republicanos.
O atavio do Palácio dos Bourbons é formoso, aí merecem destaque as tapeçarias da Real Fábrica de Tapices, mas no Palácio dos Áustrias nada sobreluz, a impressão que prevalece resulta das dimensões acanhadas e da parcimónia no adorno do gabinete e do quarto de Filipe II.
4. Vale a pena ir ao mosteiro de São Lourenço do Escorial, sobretudo para admirar os quadros que se encontram nas salas capitulares. A biblioteca tampouco fica esquecida, mesmo para quem a visite de maneira passiva e não em demanda deste ou daquele cadeixo.
Em toda aquela matéria lítica se ensina história, principalmente a história de uma Espanha austera e poderosa que reproduz a imagem de Filipe II.
No entanto, a pedra e a esquadria são frias. Vida e palpitação, eu e Jūratė só as sentimos, já fora do mosteiro‑palácio, quando deparámos com a miudagem que saía do colégio ali situado.
[1] GUSMÃO, Adriano de, Espanha Artística. Notas de Viagem, Lisboa, Seara Nova, 1947 ou 1948, p. 228.