Segundo texto de uma série baseada na viagem que, em janeiro de 2026, fiz a Madrid, a Toledo e ao mosteiro de São Lourenço do Escorial
1. No escrito anterior, disse que São Lourenço do Escorial merece visita em razão, principalmente, dos quadros expostos nas respetivas salas capitulares. Entre eles saliento O Martírio de São Maurício e a Legião Tebana (1580‑1582), pintado por Doménicos Theotocopuli, El Greco, na sequência de uma encomenda de Filipe II, o rei que mandou construir o dito mosteiro‑palácio.
Doménicos Theotocopuli (Cândia, Creta, 1541 – Toledo, 1614) distinguiu‑se graças à sua aptidão técnica e à sua originalidade. Na ilha natal, pintou ícones de sopro bizantino. Depois, na Itália, aprendeu a lição dos mestres renascentistas. Acabou por se fixar em Toledo, aí chegou ao fastígio da sua carreira.
Na composição d’O Martírio de São Maurício e a Legião Tebana, obra maneirista, El Greco incluiu a representação de gente próxima de Filipe II — era uma maneira de, elevando‑a, comparar a postura do rei na defesa do catolicismo à atitude do santo —, deixou o martírio em segundo plano e deu primazia ao diálogo de São Maurício com os seus comparsas, no sentido de, mesmo correndo o risco de serem mortos, eles não renegarem a fé cristã.
Porquanto se afastava dos cânones devocionais, a solução proposta por El Greco não agradou a Filipe II nem aos clérigos. Contrariando o propósito que presidiu à sua feitura, a tela não foi colocada na basílica de São Loureço do Escorial e passou a fazer parte da coleção privada do monarca. Hoje, está à vista de modo a receber a atenção de que é digna.

2. Acerca d’O Martírio de São Maurício e a Legião Tebana, atente‑se no que escreveu Adriano de Gusmão[1]:
«Na verdade, a composição é tão original que dificilmente se aperceberiam todos do seu alto interêsse artístico e pessoalíssimo engenho. Depois, aqueles guerreiros vestidos de armaduras, mas de pés e pernas nuas, haviam de chocar a sensibilidade devota de então, tanto mais que algumas figuras representadas parecem retratos de autênticos espanhois.
Cossio disse bem que a perda de Greco foi o êle querer seguir por caminho nunca trilhado crendo ser “mais digno do monarca apurar o engenho e fazer um esforço para oferecer‑lhe algo novo e original a que os seus naturais impulsos o levavam”. E Cossio observa luminosamente: “Em vez de apresentar com clareza a morte do santo, pensaria, e com razão, que o que era verdadeiramente grande no caso não consistia em deixar‑se matar, como tantos outros mártires, por confessar a sua fé cristã, mas em haver logrado, com a sua palavra persuasiva, o heróico sacrifício da legião inteira, verdadeira protagonista do quadro”.
Que caso é êste da Legião Tebana?
E’ tradição mais ou menos lendária que o Imperador Maximiano enviou à Gália, em fins do século ɪɪɪ, um exército a fim de submeter os Bagaudes. Nesse exército figurava a Legião Tebana, vinda do Egipto. Depois de passados os Alpes, as tropas detiveram‑se para descansar, acampando junto do Ródano. O Imperador ordenou então que o exército aproveitasse êsses dias de repouso para oferecer sacrifícios aos deuses pagãos. A Legião, composta de cristãos, negou‑se a cumprir a ordem imperial. Maximiano indignou‑se com essa recusa, determinando que a Legião fôsse dizimada. Executada essa pena, os sobreviventes não se submeteram à ordem do Imperador, que, enfurecido, ameaçou repetir o castigo. Nem assim a Legião cedeu. Dizimada de novo, o Imperador anunciou que, ou praticavam os sacrifícios aos deuses, ou a Legião seria inteiramente aniquilada, o que, diz‑se, veio a suceder, sendo todos, por fim, passados à espada.
A alma da manutenção dessa singular firmeza de ânimo da Legião Tebana foi a presença dos seus chefes Maurício e Cândido, que exortaram os legionários a permanecerem fiéis ao seu próprio credo, indiferentes às ameaças, inflexíveis perante a morte violenta dos companheiros, esquecendo o martírio pessoal que os esperava.
Ora Greco, conhecedor da lenda, optou pela composição mais original, e a mais expressiva do sacrifício a que S. Maurício sucumbiu. Daria antes relêvo à fôrça do Verbo e ao inabalável poder das convicções perante a inanidade das ordens tirânicas, por muito brutais e violentas que sejam. A fôrça do verbo vem da transmissão das claridades interiores. Verbo convincente pela propriedade dos argumentos. Vitória da razão sôbre a fôrça. Triunfo do espírito sobre os tormentos da matéria. Esta pintura de Greco como que é a glorificação da Palavra, no que ela contém de poder persuasivo, como meio superior e incomparável de comunicação humana; homenagem, ao mesmo tempo, à unidade de acção, à solidariedade de todos os correligionários, quando os homens se vêem perseguidos ou ameaçados por outros, cegos de autoritarismo, na suprema liberdade de crer, sentir e pensar.
Vêde a magnífica serenidade dêsse colóquio, dum certo amaneiramento renascentista, sim, mas sem os gestos descompostos da retórica fácil ou de desorientado desespêro. Sendo embora a cena um acto de intransigente fé, com que ritmo se sucedem os gestos persuasivos entre os chefes da Legião Tebana e os seus subalternos, senhores daquela fina gravidade tôda espanhola, que anuncia a nobre figuração do Entêrro do Conde de Orgaz [título de outro quadro d’El Greco]! Reparai, outra vez, no jogo das mãos, sábia e lindamente composto, num verdadeiro contraponto de expressões. Adivinha‑se que se levantam objecções, rebatem‑se argumentos, se vencem dúvidas. Mãos de perfil, mãos de escorço, movimentando‑se cadenciadamente em direcções várias — para a direita, para a esquerda, para cima, para baixo, para lá e para cá — construindo assim uma profundidade de perspectivas, conquistando espaço, grandeza e dignidade.
A’ esquerda e num plano mais afastado representa‑se o segundo tempo, em convenção medieval, da tragédia. Parece um Juízo Final. Um cortejo de corpos nus avança com os seus estandartes até junto dos algozes, que os decepam. Maurício recolhe melancòlicamente as cabeças dos mártires. Contrasta com a resignação dos chefes e seus acólitos o flamejante e ameaçador carrasco, um corpo vivo e robusto, junto da vítima inerte e decapitada, a qual é vista sob aqueles procurados ângulos sempre tão preferidos por Greco. Esta cena forma outro quadro, grandioso e completo, como os do Prado, conquanto reduzido dentro de tôda a pintura.
Sobrepujando as duas cenas, a do diálogo e a do martírio, cujas côres dominantes são o amarelo e o azul ultramarino, desce do ceu plúmbeo, que se abre para as iluminar fria e sobrenaturalmente, uma Glória barrôca de anjos, com as suas palmas e as suas coroas, enquanto outros, sentados entre nuvens, erguem os seus cantos piedosos.»
3. A leitura d’O Martírio de São Maurício e a Legião Tebana deveria acordar o habitante do mundo atual. Por uma banda, são muitos os que, como modo de vida, adotam o ligeirismo e só conseguem ver o que é óbvio, o que lhes põem diante dos olhos. Por outra banda, postergadas as convicções, a solidariedade e o diálogo assente na racionalidade, vai ganhando terreno — e mesmo foro de lei — a força bruta e, com ela, a pata do mais poderoso e a coação que abre caminho ao extrativismo.
Pensando no que era o sentimento de comunidade há dez ou vinte anos e cotejando‑o com o que ele é agora, apetece dizer que se vivia melhor no passado. Valha‑nos a arte, valha‑nos a empresa d’El Greco!
[1] GUSMÃO, Adriano de, Espanha Artística. Notas de Viagem, Lisboa, Seara Nova, 1947 ou 1948, pp. 240‑244.