Apontamentos

No festival da fotografia de Arles (2025): O Mundo de Louis Stettner (1922‑2016)

Vigésimo segundo — e último — texto de uma série baseada na viagem, devotada ao património cultural, que fiz no Sul da França (Costa Azul e Provença) durante o verão de 2025

Louis Stettner (Brooklyn, Nova Iorque, 1922 – Paris, 2016) andou com a câmara em diversos países, produziu obra de relevo nos Estados Unidos e na França. Foi membro da Photo League, fotógrafo militar, ganhou reputação graças à série Subway, de 1946, constituída por retratos feitos no metro da cidade que nunca dorme. Na preparação de Subway, utilizou uma Rolleiflex, que não escondeu dos que fotografava, e repetiu o tipo de composição. A Photo League foi uma associação de fotógrafos, criada em Nova Iorque no ano de 1936, que, divulgando imagens da vida dos trabalhadores, dos imigrantes e, em geral, dos mais desfavorecidos, promoveu o uso das mesmas enquanto meio de intervenção cívica.

Louis Stettner viveu em Paris entre 1947 e 1952, aí se abeirou da fotografia humanista francesa. De volta a Nova Iorque, fez imagem de rua, compôs as séries Penn Station e Nancy, the Beat Generation, empenhou‑se no combate ao racismo e na defesa do feminismo e da justiça social. Em 1990, fixou‑se outra vez no Hexágono. Entregou‑se à colagem, à escultura, à pintura e ao desenho e, antes de morrer, fotografou várias vezes as árvores do maciço dos Alpilles.

A retrospetiva do seu trabalho exibida em Arles era deveras abrangente, a seguir largo registo das quatro fotos que mais buliram comigo.

Avenue de Châtillon (Paris, 1947‑1949) converte a capital da França numa cidade irreal, fantasmagórica, sem carros e semidesértica. É bonito, o efeito da bruma.

Louis Stettner, Avenue de Châtillon (Paris, 1947-1949)

Coming to America foi tirada em novembro de 1952, no navio em que Louis Stettner regressou aos Estados Unidos. É a fotografia de um homem judeu e do seu filho (ou dos seus dois filhos). Quem a veja não pode deixar de pensar nos que, contra ventos e marés, emigram — deveria incutir humanismo nos que cegamente se opõem à imigração e olvidam que, em diversas geografias, ela é essencial para assegurar a reposição demográfica, a marcha da economia e a sustentabilidade da Segurança Social. Já nem sequer invoco o argumento fundado na solidariedade, parece que ele já não é válido.

Leitor, repita comigo: a imigração é necessária e deve ser regulada com bom senso, não com base em atoardas e no medo.

Louis Stettner, Coming to America (1952)

Brooklyn Promenade (Nova Iorque, 1954) é a foto mais célebre de Louis Stettner. A gradaria e a água separam o homem só da metrópole rica e opulenta, da qual ele semelha não fazer caso: recebe a luz do sol, ela é tudo para si. A imagem desperta a instância do prazer gratuito, de um certo back to basics, tão esquecido no mundo monetarizado dos nossos dias.

Louis Stettner, Brooklyn Promenade (Nova Iorque, 1954)

Essas três fotografias tocarão, creio eu, a mais empedernida das mentes, aquela que é insensível à emoção suscitada pela arte e pelo belo. Já Demonstration for United Farm Workers (Nova Iorque, 1975, aproximadamente) inquieta‑me por, cinquenta anos depois, existirem universos laborais injustos e indignos, nos quais se intensifica a exploração do trabalho de outrem.

Louis Stettner, Demonstration for United Farm Workers (Nova Iorque, 1975, aproximadamente)

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