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No festival da fotografia de Arles (2025): Eu Sempre Procurei a Vida, de Letizia Battaglia

Décimo nono texto de uma série baseada na viagem, devotada ao património cultural, que fiz no Sul da França (Costa Azul e Provença) durante o verão de 2025

Letizia Battaglia, Procissão dos Mistérios, Collesano, 1985
Letizia Battaglia, Hospital Psiquiátrico, Via Pindemonte, Palermo, 1986

Por vezes, noto que a qualidade técnica do objeto artístico não sobressai, mas ele vale, e vale muito, pelo seu significado, por aquilo que dá a ver, pelas emoções que desperta. Senti‑o em Eu Sempre Procurei a Vida, a retrospetiva da obra de Letizia Battaglia que visitei em Arles.

Na Sicília, palco principal da sua faina, Letizia Battaglia (Palermo, 1935 – Palermo, 2022) fotografou, designadamente, pormenores da existência dos pobres — e, em menor medida, da biografia dos ricos —, manifestações da tradição religiosa, miúdos na rua e pacientes do hospital psiquiátrico onde animou um ateliê de teatro.

Conquanto a totalidade da sua feitura revele viagens por vários países e interesse por assuntos de índole diversa — Eu Sempre Procurei a Vida comprovava tudo isso —, a fotojornalista que também andou pela esfera política e pelo mundo editorial ganhou notoriedade, nos anos setenta e oitenta do século passado, mercê das imagens que captou relacionadas com crimes cometidos a mando da Máfia, na Sicília (com elas constituiu um verdadeiro «arquivo de sangue»). Laborava então para o diário progressista L’Ora. Um dos seus trabalhos serviu, inclusive, para estabelecer prova de liame entre Giulio Andreotti e Nino Salvo, patrão da dita organização de malfeitores.

Letizia Battaglia, A multidão observa o corpo de um jovem assassinado no bairro de Romagnolo (Palermo, 1983). O seu irmão gémeo também viria a ser assassinado

Em 1992, já cansada do contacto com a violência e com a morte, e no seguimento do assassínio dos juízes Giovanni Falcone e Paolo Borsellino (tragédia que a marcou), Letizia Battaglia deixou de cobrir assuntos relacionados com a Máfia. Entre outros afazeres, passou a fotografar a nudez feminina: olhou para o corpo da mulher enquanto forma geradora de arte — não como quid provedor de notícia — e como símbolo de uma autonomia libertadora que muito prezava.

Na edição de 2025 do festival arlesiano, Eu Sempre Procurei a Vida foi a mostra que mais me agradou. As imagens que a compunham deixaram‑me uma memória vivaz dos flagícios assinados pela Máfia e também de sublimados contrastes entre luz e sombra.

Letizia Battaglia, Olimpia em Mondello, Palermo, 2020

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