Na Catedral de Toledo. O Espólio, d’El Greco

Quarto texto de uma série baseada na viagem que, em janeiro de 2026, fiz a Madrid, a Toledo e ao mosteiro de São Lourenço do Escorial

1. Casa de Deus e, para quem estima a arte, casa de regalo. O exterior da Catedral de Toledo não sobrepuja o de outras igrejas erguidas pelo mundo fora, mas o seu recheio faz dela um dos mais excelsos templos que a humanidade já viu. Durante o tempo que lá passei, não fui afetado por manifestações da síndrome de Stendhal, mas estive perto disso.

Entre as feituras de escol à vista na catedral, contam‑se: o ostensório, peça de fina ourivesaria gótica; na capela‑mor, o retábulo, de madeira policroma, e a grelha plateresca; na parte posterior da capela‑mor, o Transparente, retábulo barroco de mármore com enfeites dourados (impressiona, sim, mas denota excesso e teatralidade que ali parecem deslocados); na sala capitular, o conjunto de pinturas murais alusivas à Paixão e à vida de Nossa Senhora, obra de João de Borgonha, e a cobertura artesoada, que sugere mão mudéjar e plateresca. Da Capela de Santiago retenho feliz associação entre estilo gótico e arte tumular.

O ostensório da Catedral de Toledo (pormenor). Colhi a fotografia em https://www.catedralprimada.es/la-catedral/lugares-de-interes/la-custodia-de-enrique-de-arfe/

O coro, provido de bonito gradeamento metálico, ganha aspeto monumental graças às estalas e às galerias do registo superior. Eu topei graça particular nos episódios da conquista do reino de Granada talhados nas cadeiras do registo inferior.

As sacristias albergam pinturas de Rafael, Ticiano, Michel Coxcie, Luis de Morales, El Greco, Caravaggio, Van Dyck, Velázquez e Anton Raphael Mengs (o rol não é exaustivo). O apostolado d’El Greco vem posto em diálogo com um outro, de José Maria Cano — nasceu em 1959 —, que refresca a coleção.

Rafael Sanzio, A Virgem do Véu (óleo, século xvɪ)

A Catedral de Toledo oferece uma grande lição de arte — gótica, mudéjar, plateresca, renascentista e barroca — a quem a visita. A fartura é de tal ordem que, diante do arreio simples de uma das capelas do deambulatório, a do Cristo da Coluna, eu só quis dar alívio ao espírito. De certa maneira, senti‑me como aquele que depois de um banquete bebe um café para desenjoar.

Largo a fervença artística para mencionar a Capela Moçárabe — todos os dias, aí tem lugar missa que obedece ao ritual hispano‑moçárabe — e os restos mortais de Santa Úrsula — admiro os que se aferram àquilo em que acreditam —, que se encontram na cripta.

2. Na catedral, uma estrela brilha mais do que as outras. É O Espólio (1577‑1579), d’El Greco, pintura a óleo na qual está representada a cena, anterior à Crucifixão, em que alguns se aprestam para despojar Jesus Cristo da sua túnica vermelha, evocadora da Paixão.

As figuras humanas (e, em menor medida, as lanças) com que o artista carregou a composição geram registo de peso, de um aperto que condiz com o significado do episódio. No meio de toda aquela gente e face à perspetiva de um cautério, como reage Cristo? Com olhar e expressão sublimes, caraterísticos da ataraxia.

El Greco, O Espólio (óleo, 1577-1579). Fui buscar a fotografia a https://www.catedralprimada.es/la-catedral/lugares-de-interes/la-sacristia-y-pinacoteca/

3. Afano‑me em escrever bons textos acerca do objeto artístico. No entanto, tenho sempre presente a máxima «sutor, ne ultra crepidam» e cedo a palavra a Adriano de Gusmão[1]:

«O Espólio — de 1579 — não é a primeira pintura executada por Greco em Espanha, pois antes já houvera as do Convento de S. Domingo, também em Toledo. A miguelangelesca Santíssima Trindade, do Prado, é um dos paineis desse conjunto. Mas o Espólio é uma peça capital neste primeiro período após a sua chegada — 1577 — a terras de Espanha. E é‑o pela ciência e equilíbrio da composição, por certas notas realistas — há algumas cabeças, nessa multidão que envolve Cristo, de uma verdade surpreendente — pelo brilho da côr, irmanando‑se pela grandiosidade do estilo com o S. Maurício, no Escorial, ou o Enterro do Conde de Orgaz.

Justi chamou-lhe “a pintura mais original do século xvɪ em Espanha”, pois, como disse, “nenhuma a supera em inspiração genial, em riqueza e atractivo da côr, em plenitude de carácter, movimento intensivo, contrastes violentos, vida plástica, encanto do claro escuro que vibra através de luzes fulgurantes, vigorosos acentos pessoais, intuição melancólica do acontecimento”.

A composição, tão original, não agradou porém ao Cabido da Catedral. Não só se achou a pintura excessivamente cara, como deminuida por algumas impropriedades teológicas… Por isso houve um pleito, em que o árbitro, confessando que a pintura era “de las mejores que yo he visto”, sempre lhe atribuiu mais mil reales do que o Cabido queria pagar. A presença das Marias no primeiro plano à esquerda era contra o Evangelho e certas cabeças dos carrascos estavam acima da de Cristo — alegavam os da Catedral. O grupo das Marias ficou — e é muito belo, sobretudo pela cabeça coberta de manto claro, tão cheia de feminina graça e pela figura de grande manto amarelo, de costas para o observador, cuja cabeça tem um lindo e fino perfil, voltada para um dos carrascos que está preparando a cruz, dobrado para ela, de frente, e que nos lembra uma figura semelhante da Purificação do Templo, do mesmo artista.

Cristo, hercúleo, de mão no peito — “la eterna mano del Greco” — ergue os olhos brilhantes ao céu, alheio à violência. O seu braço esquerdo, cuja mão traça delicado gesto, cruza‑se com o braço retesado e forte, num expressivo contraste, da figura que o prende e lhe vai arrancar as vestes. Do outro lado, um centurião, vestido de armadura, olha para nós indiferente à cena. A beleza plástica dessa figura tem uma qualidade verdadeiramente veneziana, assim como o fundo do quadro, fechado por uma nesga de céu e rasgado por várias lanças, parece um eco ticianesco. Em volta e atrás da figura de Cristo acumula‑se mais de uma dúzia de homens, uns de cabeça descoberta, outros com capacetes militares, sàbiamente distribuidos, movendo‑se e olhando para vários lados, dando assim toda a agitação do momento, num belo efeito de côr e desenho! Um deles aponta, com a mão em audacioso escorço, a Cristo. As cabeças desses figurantes têm o vincado carácter da gente do povo — cabeças que iniciam a linhagem de certas pinturas de Velázquez e Goya, Ribera e Murillo, Zuloaga e Solana.

Tal realismo — nesta pintura não há nenhuma daquelas deformações que habitualmente se encontram em Greco, salvo no gigantismo de Cristo — fez com que Cossio atribuisse ao Espólio um significado especial, como primeiro trabalho onde o espanholismo de Greco mais se acentua — pois essa “novidade” já fôra observada nas pinturas de S. Domingo — a despeito do que ainda deve à escola italiana.»


[1] GUSMÃO, Adriano de, Espanha Artística. Notas de Viagem, Lisboa, Seara Nova, 1947 ou 1948, pp. 205‑208. 

Imagem da sala onde se encontra exposta a pintura O Espólio. Fui buscar a fotografia a https://www.catedralprimada.es/la-catedral/lugares-de-interes/la-sacristia-y-pinacoteca/
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