Décimo primeiro texto de uma série baseada na viagem que, em janeiro de 2026, fiz a Madrid, a Toledo e ao mosteiro de São Lourenço do Escorial
1. O acervo do Museu Rainha Sofia, em Madrid, inclui obras‑mestras da história da arte, desde logo a ressonante Guernica, de Pablo Picasso. Porém, eu não trago aqui comentários acerca de uma dessas feituras de escol, opto por um texto que versa sobre Maruja Mallo e que se arrima em Máscara y compás (Máscara e Compasso), uma retrospetiva da sua empresa que visitei no museu.
Procedo assim por diversos motivos: adorei alguns trabalhos de Mallo, sobretudo os que integravam as séries Verbenas (festas populares) e La religión del trabajo; Mallo é espanhola, várias composições suas radicam na vida em Espanha e eu, nas viagens e nos escritos que delas decorrem, privilegio o autor e a coisa local; a autora merece loas em razão daquilo que, por via da arte, fez em prol da condição da mulher; era livre até ao tutano e eu admiro pessoas livres; muitos nunca terão ouvido falar da criadora em causa, uso o ensejo para dar a conhecer o respetivo labor.
Já que a minha prosa é ilustrada por um número considerável de fotos, solto‑a em duas deposições diferentes. Esta é a primeira.
2. Eis Maruja Mallo, na tradução que fiz dum pedaço do texto atinente a Máscara y compás constante do sítio web do Museu Rainha Sofia[1]:
«Maruja Mallo (Ana María Gómez González, Viveiro, 1902 – Madrid, 1995) foi uma das grandes artistas do século xx espanhol e uma das principais figuras da Geração de 27, da qual fizeram parte Rafael Alberti, Salvador Dalí, Federico García Lorca, María Zambrano, Luis Buñuel e Rosa Chacel, entre outros. É, além disso, a representante mais importante do grupo de artistas que, pela primeira vez, apresentaram coletivamente uma cosmovisão feminina a partir de uma perspetiva igualmente inédita, a da mulher moderna, ativa, livre e profissional. Mallo foi uma artista visionária que logrou refletir as preocupações da sua época e antecipar‑se a muitas das atuais. A universalidade das aspirações humanas, para além das diferenças económicas, raciais ou de género, a consideração do mundo como um sistema ecológico inter‑relacionado e o poder da arte para revelar aspetos desconhecidos da realidade são eixos fundamentais da sua obra.
A produção artística pessoal e heterogénea de Mallo esbate as fronteiras entre o popular e o vanguardista, entre estética e política. O popular não é para ela nostalgia rural nem olhar local, mas sim um território de conciliação e hibridação, contemporâneo e urbano. Durante o seu exílio na Argentina, em consequência da Guerra Civil espanhola, Mallo transporta para as suas obras o fascínio pela beleza e pela diversidade que encontra nesse novo continente. Nelas, a figura humana, com o rosto monumentalizado, e a máscara ou a sombra como alter ego tornam‑se protagonistas.»
3. Máscara e Compasso era uma retrospetiva abrangente, apresentá‑la equivale a acompanhar o leitor em todo o caminho que Maruja Mallo seguiu.
Um par de óleos, dos anos vinte do século passado, anunciava o interesse de Mallo pelo adventício, por culturas que destoavam daquela em que havia crescido.
A primeira série da exposição intitulava‑se Verbenas (1927‑1928) e compreendia quadros resultantes da faceirice que Mallo tinha visto nas festas populares de Madrid. Através deles, farpeou a sociedade da capital, transmitiu mensagens relativas à importância da presença da mulher no espaço público, criticou o establishment: na Verbena de la Pascua (Carnaval de Navidad), uma senhora carrega um cordeiro morto, porventura em jeito de sátira aos ensinamentos da Igreja a propósito do sacrifício do cordeiro[2]; em La Verbena, a figura do guarda tem um ar carrancudo, conforme com os modos dos agentes da guarda civil noutros tempos[3].
As Verbenas denotam o espírito gaio da artista, são alegres, coloridas e puxam para o burlesco; associam músicos, gigantones e marinheiros em horas de ócio; cada uma delas represa várias cenas, mas ao rebuliço subjaz uma arrumação ditada por princípios de geometria.



De Estampas (1927‑1928), fixei as reproduções de gravuras de Mallo cujo paradeiro se ignora e nas quais se veem senhoras que praticam atividade física e que têm parte do corpo descoberta. Semelhante conteúdo era digno de registo e suscitou o reparo bacoco dos críticos.


Não apreciei as telas que faziam parte de Cloacas e campanarios (1929‑1932). O conceito que lhes dá forma é interessante e denuncia a costela surrealista de Maruja Mallo: ossadas, fósseis, detritos e figuras fantasmáticas em cenários desolados servem para presentificar a ordem burguesa a fim de sugerir a necessidade de a superar. No entanto, do ponto de vista estético, esse universo sombrio não é ma tasse de thé.

Ressalvando a louça, tampouco conquistaram as minhas graças os manufatos que compunham o grupo Arquitecturas minerales y vegetales (1932‑1933), Construcciones rurales (1933‑1936), Cerámicas. No primeiro subgrupo, os elementos naturais — fruta, por exemplo — são reduzidos, com a ajuda da geometria, a estruturas depuradas. No segundo, os debuxos de Mallo (cuja fonte de inspiração foram palheiros, celeiros e outros edifícios do mundo rural) ficam‑se pela armação, revelam apenas o arcabouço do imóvel. O critério, já se vê, é outra vez minimalista. Quanto aos artigos de olaria, foram feitos por alunos de uma escola de cerâmica, com base no que veio à luz acerca dalgumas obras da artista, se bem percebi de 1935 e de 1936, desaparecidas durante a Guerra Civil espanhola. Pondo as mãos na matéria, Mallo repetiu o uso da geometria, sob a influência dos estudos do matemático Matila Ghyka.




Nos anos trinta, Maruja Mallo vestiu pele de cenógrafa e de figurinista, mormente no âmbito do teatro de fantoches e do teatro de marionetas. Porque evidenciava a versatilidade da artista, o segmento de Máscara e Compasso dedicado à sua intervenção no meio teatral merecia apreço. Cativou‑me, acima de tudo, o toque de arte popular das imitações — feitas por um artesão, Álvaro Martínez Leiro, a partir de uma fotografia — de adereços que Mallo concebeu para Clavileño, um espetáculo de ópera e de bailado que acabaria por não ter honras de palco.

Para os autorretratos, que fez em décadas distintas da sua vida, Maruja Mallo privilegiou a máquina fotográfica. Os que vi não me causaram assombro de índole estética, valiam pelo seu significado. Mallo não era bonita, mas era convencida (no sentido positivo do termo), ousada, livre, não tinha vergonha de se mostrar. Não só desenhou a mulher enquanto ser ativo e emancipado — vide o que escrevi a propósito de Estampas —, também se deu a ver, irreverente como era no quotidiano. Se hoje a selfie oca e indicativa de vazio é comum, ali havia um sentido e um recado: Mallo era dona do seu corpo e da sua cabeça, eles não pertenciam a mais ninguém. Caso a letra d’O Navio Dela, de Manel Cruz, fosse deslocada para trás no tempo, com acerto seria inscrita na tez da artista.

4. No próximo texto, tratarei dos restantes fragmentos de Máscara y compás. Eles roboram a impressão que, acredito, já terá tomado o espírito de quem lê: Maruja Mallo era talentosa, sabedora e deu expressão à mulher e à necessidade de impor uma condição socioespacial de que ela ainda não gozava.
[1] Cf. https://www.museoreinasofia.es/exposicion/maruja-mallo [consultado na internet em 30.3.2026].
[2] Cf. MANGINI, Shirley, Maruja Mallo y la vanguardia española, tradução de Roser Berdagué, 1.a reimpressão, Barcelona, Circe, 2023, p. 94.
[3] Cf. MANGINI, Shirley, ob. cit., pp. 96 e 320‑321.