Em Toledo, duas sinagogas, uma mesquita, um templo cristão

Quinto texto de uma série baseada na viagem que, em janeiro de 2026, fiz a Madrid, a Toledo e ao mosteiro de São Lourenço do Escorial

Toledo é conhecida como cidade das três culturas e eu, na presente deposição, solto notas relativas a alguns locais de culto das três comunidades — a judaica, a muçulmana e a cristã — que tanto contribuíram para dar ao edificado da terra as formas que ele ainda hoje tem.

1. A Sinagoga do Trânsito (ou, seguindo o cânone do cristianismo oriental, Sinagoga da Dormição)

A sinagoga foi construída no século xɪv. Depois de os judeus terem sido expulsos de Espanha, no fim do século xv, o complexo sinagogal foi entregue à Ordem de Calatrava, que ali instalou uma igreja, um hospital e um asilo, em dependência de um priorado. Felizmente, os frades conservaram o atavio mudéjar da sala de orações do templo judaico. Nela, vale a pena observar o teto de madeira, artesoado, e as paredes, que exibem arcos multilobados no registo superior e que estão parcialmente revestidas de deliciosa estucagem policroma (a parede do heikhal é um must).

Estucagem na sala de orações da Sinagoga do Trânsito

Sempre me foge o olho para a pintura e, enquanto permaneci na sala, demorei‑me em exame de O Trânsito da Virgem (1546‑1550), óleo de Juan Correa de Vivar, pertencente ao Museu do Prado, que lá se encontrava exposto. Feito para a igreja do priorado, deu nome à mesma e também à sinagoga.

No quadro, o episódio patente em primeiro plano — o Trânsito — ocupa grande parte da composição, mas harmoniza‑se com aqueloutro do fundo da imagem, a Assunção. As peças de fruta visíveis na mesa de cabeceira de Maria aludem à sua condição de nova Eva (redentora, não pecadora). Juan Correa de Vivar arrumou bem os apóstolos — espalhados por terras diversas, surgiram, milagrosamente, ao pé do leito da Virgem —, de um modo que sugere ritmo.

Juan Correa de Vivar, O Trânsito da Virgem (óleo, 1546‑1550)

Nos anexos da sinagoga, assim como na galeria outrora destinada às senhoras, existe um museu devotado à cultura judaica (e, em particular, ao rito sefardita) no qual descobri dois retratos — e, com eles, as pessoas retratadas — cujo autor é Daniel Quintero: o de Ibn Gabirol, poeta e filósofo hebreu do século xɪ, e o de Gracia Mendes Nasí (ou Gracia Mendes Nasi), uma mulher de negócios portuguesa que, para fugir à Inquisição, teve de abandonar o país natal. Ela ajudou os sefardis da diáspora, especialmente no Império Otomano, onde se havia radicado.

Em visitas de índole cultural, como na vida, valorizo a paz e o sossego. Porém, encheu‑me de alegria ver os alunos de duas escolas que circulavam na sinagoga: longe da cloaca digital, mostravam‑se curiosos e faziam perguntas, algumas denotando uma inocência quase prístina.

Daniel Quintero, Ibn Gabirol (2017)
Daniel Quintero, Gracia Mendes Nasí (2005), pormenor

2. A Sinagoga de Santa Maria a Branca

O imóvel da sinagoga é do fim do século xɪɪ. Na sequência de perseguições que vitimaram os judeus, ali começou a funcionar, no início do século xv, uma igreja, sob invocação de Santa Maria a Branca.

No que toca à sala de preces, desprovida de recheio, pouco tenho a dizer. Apreciei a arquitetura de estilo mudéjar, o dossel artesoado e os arcos de ferradura, assentes em colunas com capitéis de fino lavor. Ir à Sinagoga de Santa Maria a Branca deu‑me ensejo para descansar o espírito depois das visitas, mais exigentes, a outros monumentos.

Interior da Sinagoga de Santa Maria a Branca

3. A Mesquita do Cristo da Luz

A mesquita remonta ao ano de 999, achava‑se Toledo integrada no Califado de Córdova. Os cristãos fizeram dela uma igreja no século xɪɪ e então construíram a abside. A sala de orações está despida e a formosura que costumo ver nos arcos mouriscos não compensou o desconsolo sentido quando me concentrei nos capitéis — denotam recorte pobre ou encontram‑se em mau estado de conservação — que encimam as colunas nas quais a arcaria pousa. No recinto da mesquita, eu e a minha companheira gastámos mais tempo no jardim do que naquele bloco que, visto de fora, não me desagradou.

A denominação «Cristo da Luz» provém de uma lenda. Segundo uma das suas versões, em 1085, desfilava o séquito do rei Afonso VI em Toledo depois da conquista do burgo aos mouros, o seu cavalo dobrou as patas dianteiras, inclinou a cabeça e ficou quedo, em manifestação de respeito e veneração, defronte da mesquita. Depressa se apurou a causa de tão estranha atitude — atrás de uma parede, estavam escondidos um crucifixo e uma lamparina, da época visigótica, que haviam alumiado a fé cristã durante o período de domínio muçulmano.

Interior da Mesquita do Cristo da Luz
Mesquita do Cristo da Luz

4. O Mosteiro de São João dos Reis

Acerca dos eventos que conduziram à fundação do Mosteiro de São João dos Reis, as brochuras que consultei repetem a mensagem deixada por Fernando de Aragão no último quartel do século xv: a Batalha de Toro resultou em vitória do exército por ele dirigido sobre as tropas de D. Afonso V, Rei de Portugal e dos Algarves. Não foi isso que aconteceu, abstenho‑me de o discutir agora. Certo é que Fernando e Isabel, os Reis Católicos, mandaram erguer o mosteiro para celebrar o seu alegado triunfo no referido prélio, por um lado, e porque pretendiam que os seus corpos ali viessem a ser sepultados, por outro (afinal, ficaram a dormir o sono eterno na Capela Real de Granada).

Da igreja monacal evolam‑se impressões de um gótico florido e delicado. Por ser espaçosa e graças à mestria de quem rendilhou a matéria lítica, o atavio carregado (inscrições, quimeras, figuras humanas, águias, escudos com armas aragonesas e castelhanas…) nunca é opressivo nem descai para o mau gosto.

Sem os enfeites de Natal que lá vi, o claustro apropositaria a qualificação que Gustavo Adolfo Bécquer lhe deu — «misterioso e mergulhado em triste melancolia»[1]. No seu piso térreo, os vãos toucados por arcos ogivais expõem belo arrendado de pedra e, no tímpano do portal de acesso à igreja, em baixo‑relevo de alabastro policromado, Verónica mostra o rosto de Cristo. Na galeria do andar superior, perdi‑me de encantos, uma vez mais, por cobertura de madeira com artesões, empresa de fatura neomudéjar, do século xɪx.

Piso térreo do Mosteiro de São João dos Reis. Fui buscar a foto a https://www.sanjuandelosreyes.org/monumento/claustro/

Reza a lenda que Górdio, o camponês que se tornou rei da Frígia, deixou a sua charrua no Templo de Zeus, presa a uma coluna com um nó impossível de desatar. Declararam os oráculos que aquele que o desfizesse seria senhor da Ásia Menor e Alexandre, o Grande, tentou a sua sorte. Sem sucesso. Acabou por rasgar o nó com a espada e disse que tanto valia cortá‑lo como desenredá‑lo. Os Reis Católicos inspiraram‑se nessa estória e — para entre eles afirmarem igualdade de estatuto e ainda com o fito de vincar equivalências entre Castela e Aragão — fizeram sua a divisa «Tanto monta, monta tanto» (tanto vale Isabel quanto Fernando), notória em vários pontos do Mosteiro de São João dos Reis, designadamente num par de vitrais exposto na antiga sacristia. Lastimo que na Espanha chibatada pela violência de carácter machista muitos esqueçam o bom exemplo dos Reis Católicos.

Quem passear ao pé do Mosteiro de São João dos Reis surpreende‑se ao ver as correntes que pendem das respetivas paredes. Serviram para agrilhoar cristãos presos pelos mouros do reino de Granada e, ali colocadas, evocam a proeza dos Reis Católicos, que o conquistaram.

Correntes que pendem das paredes do Mosteiro de São João dos Reis. Fui buscar a foto a https://www.sanjuandelosreyes.org/monumento/fachada/

[1] BÉCQUER, Gustavo Adolfo, Lendas, tradução e prefácio de José Domingos Morais, Lisboa, Assírio & Alvim, 2002, p. 201.

Par de vitrais exposto na sacristia do Mosteiro de São João dos Reis

Etiquetas: , ,