Em Aix‑en‑Provence, a exposição Cezanne au Jas de Bouffan (II)

Décimo sétimo texto de uma série baseada na viagem, devotada ao património cultural, que fiz no Sul da França (Costa Azul e Provença) durante o verão de 2025

A propriedade rústica que a família de Paul Cezanne tinha perto de Aix‑en‑Provence fecundou o espírito do artista, a exposição Cezanne au Jas de Bouffan — patente ao público no Museu Granet, em Aix‑en‑Provence, durante alguns meses de 2025 — pô‑lo em evidência.

Neste texto, decorrente da visita que fiz à citada mostra, mencionarei retratos e também representações com objeto diverso: banhistas, pessoal da quinta e cena de género, paisagem da Provença. Em causa estão sempre óleos.

1. Retratos

Na granja, Cezanne reproduziu em quadro diversos parentes e conhecidos seus. Numa fase inicial, proto‑expressionista, utilizou a espátula, o traço é espesso e as faces são robustas.

Em Louis‑Auguste Cezanne, Pai do Artista, Lendo «L’Événement» (1866), o autor homenageia o pai — procurava o reconhecimento dele no que toca à sua carreira nas belas‑artes —, o camarada Émile Zola — o progenitor lê o jornal em que este publicou artigos nos quais defendia os amigos, impressionistas in spe — e presta tributo a si mesmo: na composição, incluiu uma natureza‑morta da sua lavra, Açucareiro, Peras e Chávena Azul.

Paul Cezanne, Louis‑Auguste Cezanne, Pai do Artista, Lendo «L’Événement» (1866), pintura a óleo

2. Pessoal da quinta e cena de género

Cezanne levou à tela trabalhadores rurais e outros subalternos que, no Jas de Bouffan, faziam trabalho braçal: em troca de uns francos, posavam para ele.

Na ausência de preocupações de cariz documentário, o mestre não os apresentou no exercício da sua profissão. Já livre do estilo proto‑expressionista, deu toques de pincel mais ligeiros e dotou a gente do campo de um humanismo em falta nalguns grã‑finos que anteriormente havia pintado.

Paul Cezanne, Mulher com Cafeteira (1895, aproximadamente), pintura a óleo
Paul Cezanne, Homem com Cachimbo (1890‑1892), pintura a óleo

No Museu Granet, vi uma das cinco versões d’Os Jogadores de Cartas, debuxada entre 1893 e 1896. Cezanne colheu inspiração num quadro de Mathieu Le Nain para, de 1890 a 1896, realizar a série em causa.

A obra integra o acervo do Museu de Orsay, é uma das três nas quais os personagens são apenas os dois jogadores, concentrados e silenciosos, criando atmosfera tensa. Acham‑se alheados do mundo e o espetador — que não importa — dificilmente desvia o olhar que neles fixou.

Paul Cezanne, Os Jogadores de Cartas (1893‑1896), pintura a óleo

3. Banhistas

Os banhistas — ou, como era mais comum, os homens e as mulheres que se encontram na margem de um lago ou de um curso de água — foram um dos temas prediletos de Cezanne, que, na sua juventude, mergulhava no rio Arco com outros rapazes. Desenganem‑se, todavia, os que esperam topar com um Doríforo ou com uma Vénus: as evocações eróticas estão ausentes, o que Cezanne pretendeu foi fundir essas figuras nuas com o meio natural que as circunda — vide, por exemplo, Quatro Banhistas [do Sexo Feminino], de 1877‑1878. Os sujeitos de Banhistas [do Sexo Masculino] em Repouso (1875‑1876) têm, inclusive, mau aspeto.

Por que motivo foram expostas, numa mostra dedicada aos passos artísticos de Cezanne no Jas de Bouffan, imagens de banhistas?

Algumas delas foram feitas no ateliê da quinta, desde logo porque, conquanto apreciasse a criação no local onde a cena se desenrolava, Cezanne sentia acanho perante as mulheres e, em vez de as observar ao pé de um qualquer flume, optava por recorrer à sua imaginação e trabalhar em estúdio.

Paul Cezanne, Quatro Banhistas [do Sexo Feminino], de 1877‑1878, pintura a óleo
Paul Cezanne, Banhistas [do Sexo Masculino] em Repouso (1875‑1876), pintura a óleo

4. Extramuros

Cezanne representou vários locais da Provença, situados perto do prédio rústico da sua família. Agradou‑me O Mar em l’Estaque (1878‑1879), um dos fragmentos da sequência que exibe a transformação da aldeia de pescadores em zona industrial. Nele aprecio a cor, a composição e o plano picado.

Paul Cezanne, O Mar em l’Estaque (1878‑1879), pintura a óleo
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