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Diversão: poesia de Blas de Otero

Oitavo texto de uma série baseada na viagem que, em janeiro de 2026, fiz a Madrid, a Toledo e ao mosteiro de São Lourenço do Escorial

1. Na primeira fase do seu trabalho poético, Blas de Otero (Bilbau, 1916 – Majadahonda, 1979) denotou, sobretudo, preocupações religiosas e existenciais. Depois, a partir de Pido la paz y la palabra (1955), cuidou do ser humano espanhol no seu destino coletivo, relacionando‑o com a pátria, com Espanha.[1] Chamado à empresa de Otero através do poema Toledo, acabei — visto que me caiu nas mãos a antologia País — por cravar a atenção no conjunto de textos que evocam Espanha (o seu sangue, a sua alma, o seu habitante e o seu território) e que expõem a dor sentida pelo vate em virtude dos males que a afetam. Os cinco poemas que a seguir apresentarei e traduzirei foram publicados pela primeira vez no livro Que trata de España (1964).

Por venir

MADRE y madrastra mía,

españa miserable

y hermosa. Si repaso

con los ojos tu ayer, salta la sangre

fratricida, el desdén

idiota ante la ciencia,

el progreso.

                              Silencio,

laderas de la sierra

Aitana,

rumor del Duero rodeándome,

márgenes lentas del Carrión,

bella y doliente patria,

mis años

por ti fueron quemándose, mi incierta

adolescencia, mi grave juventud,

la madurez andante de mis horas,

toda

mi vida o muerte en ti fue derramada

a fin de que tus días

por venir

rasguen la sombra que abatió tu rostro.

Por Vir

MINHA mãe e madrasta,

espanha miserável

e bonita. Se repassar

com os olhos o teu ontem, ressairá o sangue

fratricida, o desdém

idiota perante a ciência,

o progresso.

                              Silêncio,

ladeiras da serra

de Aitana,

murmúrio do Douro que me envolve,

margens lentas do Carrión,

bela e doída pátria,

os meus anos

por ti passaram queimando‑se, a minha incerta

adolescência, a minha grave juventude,

a maturidade andante das minhas horas,

toda

a minha vida ou morte em ti foi derramada

para que os teus dias

por vir

rasguem a sombra que deixou tristeza no teu rosto.

Em Por Vir, Blas de Otero juntou o elemento geográfico à verificação de um passado obnóxio. O último verso abre, porém, registo de esperança.

Heroica y sombría

   DE haber nacido, haber

nacido en otro sitio;

por ejemplo, en Santiago

de Cuba mismo.

   De haber nacido, haber

nacido en otra España;

sobre todo,

la España del mañana.

   De haber nacido, haber

nacido donde estoy:

en la España sombría

y heroica de hoy.

Heroica e Sombria

   A ter nascido, ter

nascido noutro lugar;

mesmo, por exemplo, em Santiago

de Cuba.

   A ter nascido, ter

nascido noutra Espanha;

sobretudo,

a Espanha do amanhã.

   A ter nascido, ter

nascido onde estou:

na Espanha sombria

e heroica de hoje.

Não há volta a dar: apesar dos desgostos que a sua pátria lhe causa, Otero sente que só poderia ter nascido naquela Espanha, a Espanha do seu tempo.

Dormir

   DORMIR, para olvidar

España.

   Morir, para perder

España.

   Vivir, para labrar

España.

   Luchar, para ganar

España.

Dormir

   DORMIR, para esquecer

Espanha.

   Morrer, para perder

Espanha.

   Viver, para lavrar

Espanha.

   Lutar, para ganhar

Espanha.

O vate não desiste: a condição de Espanha desconsola‑o, mas ele insiste na necessidade de lutar pelo futuro do seu país.

Torno…

   TORNO

los ojos a mi patria.

Meseta de Castilla

la Vieja, hermosa Málaga,

Córdoba doblando la

cintura, mi Vizcaya

de robles y nogales,

pinos y añosas hayas,

clara Cataluña, puro

León, lenta Granada,

Segovia de oro viejo,

Jaén ajazminada,

Moncayo azul, altivos

Gredos y Guadarrama,

blanca Vinaroz,

Extremadura grávida,

patria de pueblo y pan

partido injustamente.

Volto…

   VOLTO

os olhos para a minha pátria.

Meseta de Castela­­­-

a‑Velha, formosa Málaga,

Córdova curvando a

cinta, minha Biscaia

de carvalhos e nogueiras,

pinheiros e anosas faias,

luminosa Catalunha, pura

Leão, lenta Granada,

Segóvia de ouro velho,

Jaén perfumada de jasmim,

Moncayo azul, altivas

Gredos e Guadarrama,

branca Vinaroz,

Estremadura grávida,

pátria de povo e de pão

repartido injustamente.

Espanha: terra cheia de encantos, mas injusta.

Torre da Catedral de Toledo

O último poema que aqui trago é Toledo. Presto tributo à cidade que lhe deu nome: facultosa no que à arte diz respeito, nela percebi qualidade de vida e comi com prazer (gachas toledanas, carcamusas toledanas, perdiz de escabeche…). A Bajada del Pozo Amargo, referida no texto, é uma rua do seu casco histórico.

Toledo

    TOLEDO

dibujada en el aire,

corona

dorada

del Tajo,

taller

de la muerte,

tela

verde de la Asunción,

sombría

Bajada del Pozo Amargo,

brille

tu cielo

morado,

pase

suavemente la brisa

rozando

tu silo de siglos.

Toledo

    TOLEDO

desenhada no ar,

coroa

dourada

do Tejo,

oficina

da morte,

pano

verde da Assunção,

sombria

Bajada del Pozo Amargo,

brilhe

o teu céu

púrpura,

passe

suavemente a brisa

roçando

o teu silo de séculos.

El Greco, Vista e Mapa de Toledo, óleo sobre tela (1608-1614, aproximadamente)

2. Blas de Otero amava a sua pátria, que tanta dolência nele produzia. Também eu gosto muito da Espanha, da sua riqueza artística, da sua gastronomia, do apelo à cor, dos seus cidadãos que não se ficam pelas meias‑medidas. Como sucedeu noutros países — França e Portugal, por exemplo —, vi lá inaudita agressividade na esfera pública, agressividade que impossibilita a construção de pontes entre quem tem opiniões diversas. Não fiquei surpreendido — assino a edição eletrónica dos jornais El País e El Mundo —, somente triste por confirmar que as circunstâncias do nosso tempo aniquilam a realização da comunidade. E os jovens, a quem o futuro pertence, não podem dar grande ajuda. Ostentam títulos e doutoramentos, mas falta‑lhes o lastro, educador e informativo, da cultura humanista. E, é preciso reconhecê‑lo, são açoitados pela precariedade e pelas condições económicas em que lhes é dado viver.


[1] CANO, José Luis, in OTERO, Blas de, País. Antología (1955‑1970), seleção e prefácio de José Luis Cano, Esplugas de Llobregat (Barcelona), PLAZA & JANÉS, 1974, p. 10.

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