Vigésimo nono texto da série Autores que Cantaram o Douro
1. Alves Redol (Vila Franca de Xira, 1911 – Lisboa, 1969), pioneiro do neorrealismo no canto lusitano, escreveu romances, contos, peças de teatro, textos de cariz etnográfico (e não só), obras de literatura infantojuvenil e artigos para jornais e revistas. Foi resistente antifascista e militou no Partido Comunista Português.
Conquanto ligado ao Ribatejo, elegeu a região duriense como palco de Porto Manso (1946) e dos romances que compõem a trilogia Port Wine, a saber, Horizonte Cerrado (1949), Os Homens e as Sombras (1951) e Vindima de Sangue (1953).
Nos quatro volumes de estórias passadas em terras do Douro, Alves Redol reconstitui, afirmaram‑no António José Saraiva e Óscar Lopes[1], «por forma demasiado didáctica, esquematicamente precisa, os conflitos históricos da região duriense» — o grifo é da minha lavra. Pela parte que me toca, gostei muito de Port Wine (não li Porto Manso). É verdade que, inquieto perante a extorsão no mundo do trabalho e por haver tantas pessoas que mourejam e que, mesmo assim, não conseguem levar vida digna, cada vez me interesso mais pelo tema neorrealista, na literatura como na pintura.
Mas, independentemente disso, apreciei a prosa enxuta dos livros que estruturam o terno. Eles formam uma série e devem ser lidos em sequência (a ação desenrola‑se nos primeiros 15 anos do século xx). O texto contém descrições das paisagens do vale do Douro, mas o essencial é a vida áspera — e tantas vezes sem pão — do lavrador duriense: a vinha, o negócio, as cifras, a exploração do produtor pelo poder da procura personificado no comerciante‑especulador; inclui enredos amorosos e dramas de faca e alguidar; e não faltam os jogos rasteiros da política nacional nem o quadro mais vasto da situação no mundo (Redol denuncia a tentação colonialista, o imperialismo e as consequências deste).
2. Logo no primeiro volume, Horizonte Cerrado, se topa a pluma neorrealista do autor. É difícil escoar a produção de vinho, os especuladores aproveitam‑se disso, vampirizam os «lavradores esganados». Estes integram um modelo extrativista, que lhes deixa pouco ou nenhum lucro; o seu trabalho beneficia os negociantes‑abutres e, sobretudo, as companhias inglesas: «O lavrador é o burro e o comércio português a albarda; mas quem vai às cavaleiras é o beef.»[2] E há quem tenha o desplante de lhes dizer que o seu vinho deve ser uma tinta de escrever na cor, um Brasil na doçura e uma Índia no aroma[3].
A pobreza exposta em Horizonte Cerrado é de tal ordem que impele o esfomeado Fatinário a, correndo o risco de ser atacado pelos cães dos pastores, deitar‑se debaixo da barriga de uma cabra e a aproximar a boca da respetiva teta, ordenhando‑a para beber leite[4].
O seguinte excerto de Os Homens e as Sombras agrupa parte dos abrolhos sentidos pelo povo do Douro:
«O [Manuel] Inverno franziu as sobrancelhas fartas, deu um trejeito de repelão aos queixos barbudos e voltou‑se de frente para o compadre.
— Quando o vendaval é forte, não há assapada que se aguente. Queres pior ainda?… Já me bastavam estas últimas colheitas, em que a gente parece mais pobre de pedir do que donos de terras. Mata‑nos o trabalho e matam‑nos mais ainda as canseiras da cabeça. Agora chove fora de tempo… depois o granizo… logo a seguir uma soalheira de queimar tudo. E é a mangra, o míldio, os escaldões… o inferno!
A sua voz tinha dobres de uma amargura dolorosa. Torcia agora as mãos tisnadas e aduncas, como se os anos lhas tivessem descarnado e só as veias túrgidas lá quisessem ficar. António Teimas piscava os olhos azuis, ouvindo o desfiar de verdades do companheiro, mas respondia‑lhe com um sorriso calmo quando o outro o enfrentava.
— E por cima de tudo os juros… Os juros que comem primeiro na nossa malga e a deixam vazia… Se deitam primeiro na nossa travesseira e ficam toda a noite a pôr‑nos espertina nos olhos… E se agarram às nossas orelhas para nunca mais nos deixarem com lembranças ruins. “Tens de pagar!… Tens de pagar!…” E a gente não paga e são mais umas tantas valeiras queimadas por essa doença pior que a filoxera…»[5]
Atente‑se também neste fragmento de Vindima de Sangue, que vai na mesma esteira:
«As vendas só tinham cheios os livros dos fiados. Tudo lhes vinha de fora, e naquela terra nem o centeio nem a couve medravam. As montanhas sem fim lá estavam, gloriosas de verde, com os bagos a ganharem forma nas cepas atormentadas pela secura que se adivinhava na tremulina dum sol de inquisição.
Nem vinho havia para os homens se embriagarem e esquecerem — era a vida dura, cara a cara, sem mistificações.
Famintos, organizados em grupo, os rapazes assaltavam as quintas e comiam os cachos verdoengos e amargos, que punham alguns à beira da morte, em delírios de febres altas, com os ventres rotundos pelas infecções. Os homens andavam taciturnos, de cabeça baixa, em bandos que percorriam a aldeia e os montes, depois de terem dizimado, em poucos dias, toda a caça encontrada nos cerros e nas coitadas.
Um silêncio profundo gritava súplicas para além dos horizontes fechados pela fome.»[6]
3. Port Wine apresenta o universo crespo do viticultor duriense: não bastassem os desmandos do clima e os embaraços provocados pela orografia, ele não consegue dar saída à produção. E revela atrasos e mesquinhezes da época — o machismo em ambiente rural, homens que, como senhores de baraço e cutelo, põem e dispõem do destino de raparigas pobres; o espírito miúdo e invejoso do meio reguense a propósito da relação entre o Gonçalves e Elisabeth, uma artista de circo; para que não sucumbisse a tentações, à Gracinda é imposta, pela família do marido e depois da morte deste, a presença de uma sobrinha, que com ela foi viver.
O episódio no qual uma cachopa se ajoelha à porta do lagar e, conforme manda o ritual em uso, limpa o pó dos sapatos de um figurão[7] é indigno e humilhante, recordou‑me cena parecida do romance Vindima, de Miguel Torga.
Interesso‑me pelas tradições do meu país, estejam vivas ou não. Mas algumas causam‑me repulsa, nojo. Entre elas, as pulhas da Quinta‑feira de Comadres — petas, gracejos ou comentários, ditos em público, que envergonham e deixam ficar mal outras pessoas, nomeadamente membros da mesma comunidade (familiares, amigos, vizinhos…). Vejo as pulhas como predileção dos pulhas.
Em Os Homens e as Sombras, Alves Redol deu eco a semelhante costume: as pulhas saíam da boca de enzoneiros, o seu alcance era amplificado por funis largos. E foram elas que acordaram em Manuel Inverno e no já perturbado Francisco a vontade de matar António Francisco.
4. No último livro do tríptico, Vindima de Sangue, o autor dedica muitas páginas aos protestos do povo duriense contra o artigo 6.º do tratado de comércio e navegação que Portugal celebrou com a Grã‑Bretanha e que foi assinado em 12 de agosto de 1914. Ao abrigo dessa norma, a denominação de origem «Porto» poderia ser aplicada, na Inglaterra, a qualquer vinho produzido no nosso país.
A revolta popular desembocou no Motim de Lamego (20 de julho de 1915), do qual resultou a morte de várias pessoas. Redol traz tal assuada para a sua obra de ficção e, a terminar esta trilogia de travo épico, faz da Gracinda uma das vítimas mortais do Motim de Lamego, confirmando a propriedade da frase que Luís Teimas ouvira ao avô e que gostava de repetir junto do pai, Francisco: «O vinho do Doiro é a gente que o faz com nosso sangue…»[8]
5. Port Wine é empresa neorrealista de fôlego. Gostei de ler os três romances que lhe dão corpo, ganhei conhecimento — acerca dos durienses e não só — e reforcei o meu parecer: desvelando a condição dos que, pelas suas fainas, só recebem pão amassado pelo Diabo, a mais certa das escritas irrita consciências e defende‑os.
[1] SARAIVA, António José/LOPES, Óscar, História da Literatura Portuguesa, 17.ª edição, reimpressão, Porto, Porto Editora, 2017, p. 1036.
[2] REDOL, Alves, Horizonte Cerrado. Ciclo Port Wine – I, [s.l.], Publicações Europa‑América, 1974, p. 283.
[3] REDOL, Alves, ob. cit., p. 66, in fine.
[4] REDOL, Alves, ob. cit., p. 42.
[5] REDOL, Alves, Os Homens e as Sombras. Ciclo Port Wine – II, 3.ª edição, [s.l.], Publicações Europa‑América, 1974, pp. 75‑76.
[6] REDOL, Alves, Vindima de Sangue. Ciclo Port Wine – III, 3.ª edição, [s.l.], Publicações Europa América, 1975, pp. 338‑339.
[7] Cf. REDOL, Alves, Horizonte Cerrado. Ciclo Port Wine – I, p. 260.
[8] REDOL, Alves, Vindima de Sangue. Ciclo Port Wine – III, p. 379.