Maruja Mallo, uma retrospetiva da sua obra (II)

Décimo segundo texto de uma série baseada na viagem que, em janeiro de 2026, fiz a Madrid, a Toledo e ao mosteiro de São Lourenço do Escorial

1. A presente deposição versa sobre o trabalho de Maruja Mallo, artista plástica do século xx espanhol. À semelhança do que sucedeu no texto anterior, baseio‑me em Máscara y compás (Máscara e Compasso), uma retrospetiva da sua obra que, em janeiro de 2026, visitei no Museu Rainha Sofia.

2. O segmento da exposição que mais apreciei foi La religión del trabajo (1936‑1939). Mallo exaltou a condição do trabalhador e, em especial, da mulher trabalhadora, mas, ao contrário de outros artistas — Vicente Cutanda, por exemplo[1] —, não recorreu à imagem dramática que concita compaixão ou que levanta chamas de defesa da causa operária. Ela pôs em cena figuras que cultivavam a terra ou que exerciam atividades relacionadas com o mar. No primeiro caso, deu preferência a tons dourados; no segundo, privilegiou os acinzentados.

Maruja Mallo pintou Sorpresa del trigo (1936), a primeira tela da série, depois de assistir a uma manifestação integrada nas comemorações do Primeiro de Maio de 1936. Estava com María Zambrano quando delas se acercou uma camponesa que participava no desfile e que empunhava uma baguete. Interpelada por Mallo, respondeu‑lhe que assim clamava por pão, é dizer, por pitança. Nesse óleo, dum período marcado por particular engajamento da autora, a presença do trigo simboliza luta e evoca o trigo de Castela, base da alimentação das massas.[2] A artista repetiu o tema e as sugestões em Canto de las espigas (1939), uma vez mais com senhoras de beleza rude.

Num par de quadros relacionados com a faina da pesca, Arquitectura humana e Mensaje del mar, ambos de 1937, estranhei a androginia dos rostos. A masculinização da figura feminina e a criação de ambiguidade no que toca ao género poderiam advir da necessidade de mostrar as mulheres como criaturas dotadas de forte constituição física[3]. No que respeita ao título do primeiro, Mallo acertou em cheio, não me lembro doutra imagem com apresentação tão arquitetónica de um ser humano.

Maruja Mallo, Sorpresa del trigo (óleo, 1936)
Maruja Mallo, Canto de las espigas (óleo, 1939)
Maruja Mallo, Arquitectura humana (óleo, 1937)
Maruja Mallo, Mensaje del mar (óleo, 1937)

Durante o exílio na América do Sul, Maruja Mallo tomou‑se de encanto pelas águas do Pacífico e trouxe para as suas composições aquilo que lá viu (algas, estrelas‑do‑mar, anémonas‑do‑mar, conchas…), por vezes associando‑o a flores, sobretudo rosas e orquídeas. Submetendo o conjunto a uma arrumação ditada por critérios geométricos, criou peças de pendor erótico evocativas do sistema reprodutor feminino, fonte de vida. Agrupou‑as em Naturalezas vivas (1941‑1944).

A designação «naturaleza viva» tem conotações que vão para além da arte: oposta a «naturaleza morta», representa a rejeição, por Maruja Mallo, do culto da morte que preponderou na Espanha durante a ditadura franquista[4].

Maruja Mallo, Naturaleza viva VIII (óleo, 1942, aproximadamente)
Maruja Mallo, Naturaleza viva XIV (óleo, 1943)

Retratos bidimensionales, sequência de óleos pintados entre 1941 e 1952, também conhecida por Cabezas de mujer, expressa a rendição de Maruja Mallo à diversidade étnica da América do Sul. Compreende a representação de rostos vistos de frente ou de perfil, por norma em fundo neutro que faz ressair as linhas da face. A artista manteve os traços individuais de quem lhe serviu de modelo e ensaiou a mistura de raças e de géneros: vide Mujer rubia. El campeón, de 1951.

Ligo as sul‑americanas nas quais Mallo se inspirou a uma certa informalidade. No entanto, Mallo trá‑las de um jeito hierático.

Maruja Mallo, Mujer rubia. El campeón, (óleo, 1951)
Maruja Mallo, Perfil de joven (joven negra), óleo, 1948
Maruja Mallo, Cabeza de mujer (frente), óleo, 1941
Maruja Mallo, Cabeza de mujer (perfil), óleo, 1941

Não gostei da plástica das Máscaras (1948‑1957), algumas caem para o grotesco. Trata‑se de um conjunto no qual falta naturalismo e sobra simbologia: a máscara — a mudança e a nova identidade que ela supõe — recorda a experiência do exílio, que Mallo sentiu na pele e na alma.

Maruja Mallo, Dos máscaras en la playa (óleo, 1948-1955, aproximadamente)
Maruja Mallo, Máscaras. Diagonal I (óleo, 1949-1950, aproximadamente)

Achei estranhos os quadros do globo formado por Moradores del vacío (1968‑1980), Viajeros del éter (1982) e Protoesquemas (1968‑1972). Mallo inspirou‑se em saberes esotéricos, na ficção científica, na aventura espacial, na mitologia, multiplicou o emprego de formas geométricas, criou figuras afastadas do real.

A arte é o reino da dissonância, o universo em que cabem muitos gostos e mundos. No meu parecer de amador, Maruja Mallo não foi bem‑sucedida na fuga ao facto, no trilho imaginário que decidiu percorrer.

Maruja Mallo, Glaucopión (óleo, 1980, aproximadamente)
Maruja Mallo, Almotrón. Geonauta (óleo, 1968-1970, aproximadamente)

3. A terminar, escrevo o que há dez anos não teria escrito, deixo uma leitura que me preocupa.

Assiste‑se ao regresso em força do machismo e da masculinidade tóxica, por exemplo entre os jovens do sexo masculino que pertencem à geração Z. Para isso contribuem os influenciadores digitais que verminam na manosfera e os algoritmos que, nas redes sociais, promovem conteúdos de cariz misógino. A ascensão e a importância política e social da extrema‑direita geram atmosfera que ajuda a incubar os ovos das serpentes.

Quem por estas seja influenciado nunca poderá admirar artistas como Maruja Mallo — pessoas estruturalmente livres — nem a respetiva empresa, que encarece a presença da mulher no espaço público.

A direita radical já condiciona a política no setor da cultura: em Lisboa, no âmbito municipal, aconteceu recentemente. Temo que, a partir do dia em que ela chegar ao poder, sejam proibidas exposições de autores como Mallo.


[1] Cf. um dos textos publicados neste blogue (https://josepaulopego.net/primeiros-passos-em-toledo-o-realismo-social-na-pintura-de-vicente-cutanda/).

[2] Acerca do que já vai dito neste parágrafo, cf. MANGINI, Shirley, Maruja Mallo y la vanguardia española, tradução de Roser Berdagué, 1.a reimpressão, Barcelona, Circe, 2023, pp. 186‑187.

[3] Vd. MANGINI, Shirley, ob. cit., p. 217.

[4] MANGINI, Shirley, ob. cit., p. 358.

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