Elegância e falta dela. Em Almagro, paz burguesa e o Beti Jai. Em Lavapiés, atmosfera carregada

Décimo texto de uma série baseada na viagem que, em janeiro de 2026, fiz a Madrid, a Toledo e ao mosteiro de São Lourenço do Escorial

Com uma saudação para David Cerdán García

1. Fui apreciador da mulher espanhola, da sua elegância e do seu salero, das artes que empregava para andar nos trinques e para provocar o desejo mesmo sem ser bonita. No meu ver, ela era a mestra da coqueteria. Em Bruxelas, onde vivo há quase 18 anos, venho notando que as hembras desbotaram, perderam cores e primores: parte das que conheço não tem donaire, algumas são mesmo achamboadas.

Como seria em Madrid?

Só no quarto dia da estada na capital eu vi damas cuja figura associava garbo e beleza. Sucedeu no bairro de Almagro, um dos mais seletos de Madrid. Intus et in cute, entreguei a palma de ouro a uma quarentona cujo bronze denunciava férias de fresca data. Ela vestia camisola e xaile da mesma cor e calçava botas de cano alto, nas quais havia enfiado os jeans de boa qualidade.

Frontón Beti Jai

2. Desloquei‑me a Almagro com o propósito de visitar o frontón Beti Jai, um local onde outrora decorreram partidas de pelota basca. O termo espanhol («frontón») que designa o complexo devotado à prática de tal desporto tem tradução direta no português do Brasil («frontão»). Porque emprego o português do torrão luso, opto por «complexo» para me referir a esse conjunto que compreende a cancha e as zonas destinadas ao público.

Noutros tempos, vários membros da realeza espanhola passavam férias no País Basco. Entre eles contava‑se a rainha María Cristina (1858‑1929), que incentivou a criação, em Madrid, de espaços para a prática de um jogo que empolgava os vasconços: a pelota basca. Esta depressa ganhou adeptos na capital e o Beti Jai, inaugurado em 1894, foi um dos frontones aí construídos. As respetivas bancadas tornaram‑se ponto de encontro mundano ou voltado para os negócios.

O excesso da oferta e os outros entreténs à disposição dos madrilenos esbateram os entusiasmos iniciais. Acresce que, por causa do universo das apostas e das tragédias de índole pessoal que elas espoletaram, a pelota basca foi acoimada de «imoral». Assim, poucos anos depois de abrir as suas portas, o Beti Jai converteu‑se, sobretudo, num palco de concertos e de eventos desportivos diversos.

Em 1904, nele passou a funcionar a sede do Centro de Ensaios de Aeronáutica, dirigido por Leonardo Torres Quevedo, o inventor do telecomando. Mais tarde, o complexo acolheu vendedores de carros e de motas, oficinas, consultórios de médicos e fabriquetas.

Expropriado pelo município, foi requalificado e é um sítio interessante para visitar, para sentir uma hispanidade genuína e distintiva.

O Beti Jai denota a influência do estilo neomudéjar. Nem todo ele é bonito, eu apreciei principalmente a armação das bancadas que envolvem o terreno de jogo.

Imagens do Beti Jai

3. Em Almagro topei paz burguesa, morar lá está ao alcance de uns happy few. Já em Lavapiés quase só vi gente originária de África e da Ásia, assisti a uma intervenção policial, as pessoas que interpelei a fim de pedir informações disseram‑me para ter cuidado, pois «hay muchos robos».

Tinha referências positivas acerca do cosmopolitismo em Lavapiés, mas o que vi foi uma multiculturalidade nivelada por baixo, proposta por gente zangada e sem esperança.

Nesse bairro, pretendia — e consegui — ver corralas, prédios com habitações pequenas, inicialmente concebidas para famílias de trabalhadores, às quais se acede através de portas que abrem para galerias circundantes de um pátio. No muro que fechava uma dessas corralas, alguém pintou um elefante.

A fachada de uma barbearia, agora de um restaurante asiático, oferecia imagem representativa do que são hoje Lavapiés, a Espanha e a Europa. Limito‑me à remissão para uma das fotografias que acompanha o presente texto.

Termino com um registo dirigido ao woke maldoso: nos parágrafos precedentes, não quis formular nenhum juízo de valor negativo; entendo que a Europa precisa de imigrantes e que a imigração não acarreia a criminalidade.

Corrala em Lavapiés
Em Lavapiés

Manuel Gómez, o Pasieguito (jogador de pelota). Foto exposta no Beti Jai e publicada na edição da revista El Pelotari de 15 de fevereiro de 1894
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