Décimo oitavo texto de uma série baseada na viagem, devotada ao património cultural, que fiz no Sul da França (Costa Azul e Provença) durante o verão de 2025
1. Eu e a Jūratė rematámos o nosso passeio por terras do Midi em Arles, aí vimos exposições integradas nos Rencontres d’Arles, o célebre festival de fotografia que anualmente tem lugar na cidade. Dediquei alguns escritos àquelas de que mais gostei, este é o primeiro que publico.


2. Kourtney Roy (1981), fotógrafa, produtora e realizadora de filmes, nasceu em North Bay (Ontário), no Canadá, e labora sobretudo na França, país onde vive. Nos Rencontres d’Arles de 2025 apresentou A Turista, que agrupa algumas das fotos — poucas, hélas — tiradas em 2019 e em 2020 no universo balnear de Cancún e de Miami.
Quem as veja reconhece a fatura de Roy — autorretratos, composição bem gizada, cores vivas e ácidas, modos cinematográficos, representações de um kitsch que se volve burlesco —, topa com um mundo que já há de ter conhecido nas suas próprias férias e também com uma invenção, carregada nas tintas, da lavra da artista. Quanto ao glamour que as imagens pudessem transmitir, ele é devorado pelo exagero.
A empresa de Kourtney Roy revela uma época na qual muitas pessoas, em vez de realmente aproveitarem o tempo de ócio (e eu penso que as férias são, em medida essencial, férias interiores, que têm palco na alma de quem as goza), gastam‑no a procurar a fotografia ou o vídeo para mostrarem no Facebook ou no Instagram.
Trará isso real satisfação? Embora a vida deva incluir platitudes e trivialidades, creio que a resposta é negativa.
Certo é que, consoante sucede com as fotos de Martin Parr, o observador nunca se esquecerá daqueloutras feitas por Kourtney Roy e sempre as ligará à respetiva autora. Estudei fotografia, mas amiúde não consigo identificar o dono da câmara que está por trás de uma imagem. Todavia, no caso de Parr e de Roy, os embargos desaparecem: mais do que apreciar os seus trabalhos, eles deixam um impacto distintivo no meu espírito. Aliás, movido por esse esbarro, é com a obra de Roy que começo esta série de textos baseados na minha ida aos Rencontres d’Arles.


